Três décadas de resistência, identidade e pista em Brasília
Brasília tem uma relação estranha com o techno. Uma relação que não começou em clube, nem em rádio, nem em qualquer estrutura planejada. Começou em encontros improváveis, em discos trazidos na mala, em espaços que ninguém havia imaginado transformar em pista de dança. E essa lógica — a de criar algo onde não havia nada, de ocupar o que estava vazio, de resistir quando a ordem era calar — nunca mudou. Trinta anos depois, ela ainda pulsa.
O techno chegou a Brasília antes de qualquer infraestrutura para recebê-lo. E talvez seja exatamente por isso que ele fincou raízes tão profundas aqui. Eu fui testemunha e parte dessa história — e é ela que quero contar.
I. A Semente (1988–1992)
A história começa com um encontro que eu não presenciei, mas que moldou tudo que viria depois. Daniel Cioffi, americano filho de funcionário da Embaixada dos Estados Unidos, estudava na Escola Americana de Brasília quando conheceu Pedro Tapajós — que mais tarde ficaria conhecido como Sunrise 1, e depois como The Six. Danny havia crescido em Nova York, frequentado os lugares certos na hora certa, e chegou à capital do Brasil com uma caixa de discos e uma bagagem cultural que a cidade ainda não tinha como dimensionar.
Foi Danny quem apresentou o álbum Frequencies do LFO a Pedro e a André Costa — que usava os nomes Cnun e, mais tarde, Isn’t. Esse disco, lançado pelo selo Warp, era uma declaração de influências: Detroit, Chicago, Kraftwerk, Brian Eno. Uma cosmogonia do que viria a ser o techno e a eletrônica experimental. Para Pedro e André, ouvir aquilo em Brasília, no fim dos anos 80, foi como receber transmissões de um futuro que a cidade ainda não sabia que queria. Para André Costa, Danny foi o pioneiro absoluto da nossa cena.
De 1988 a 1990, o som eletrônico aparecia em brechas — nas boates Zoom, Something, Scaramouche e New Aquarius, onde Danny se apresentava como DJ e funcionava como catalisador de um momento. O próximo passo foi natural: sair dos espaços convencionais e criar os próprios.
Em 1992, Pedro e André produziram a Mentok 1, uma festa realizada no hangar de ultraleves ao lado do autódromo. O nome era uma faixa do LFO — como a festa We Are Back, realizada na Oficina Perdiz. Eu me lembro bem dessa época: eram os primeiros experimentos de ocupação de espaços não convencionais, e aconteceram meses antes da que é geralmente apontada como a primeira rave do Brasil, a L&M Music em São Paulo, em maio de 1993.
II. O Sub, o Goethe e a Primeira Vez (1995)
Em 1995, um evento singular marcaria a história da cidade e de um espaço que se tornaria sagrado para a cultura underground brasiliense: o Subsolo do Teatro Dulcina, no Conic.
O Instituto Goethe, que difunde a língua e a cultura alemã, criou o projeto Techno Samba — uma iniciativa de intercâmbio entre profissionais de clubs noturnos e produtores de dance music da Alemanha e do Brasil. O coordenador era Konrad Mathieu, que com o DJ Hans Nieswandt formava a Whirlpool Productions, selo alemão especializado em House Music Experimental. Eles visitaram cidades brasileiras em busca de músicos, produtores e espaços.
A festa resultante, chamada Great Space Here, foi realizada no subsolo do Teatro Dulcina e apresentou pela primeira vez DJs internacionais na cidade — Hans Nieswandt e Justus Köhncke, ao lado dos brasilienses Cnun e Sunrise 1. Era a primeira vez que uma instituição internacional participava de um evento de música eletrônica em Brasília.
Naquela noite ficou claro para mim que o Conic poderia ser um dos grandes locais de eventos de música eletrônica de Brasília. É um espaço no centro da cidade, diverso, e com o espírito verdadeiramente underground.
O Conic, com seu caráter plural, popular e central, ficaria gravado como o espaço de resistência da nossa cena. Essa primeira ocupação do Sub em 1995 plantaria uma semente que germinou por décadas.

III. O Primeiro Club (1996) — O Wlöd
No dia 11 de maio de 1996, abrimos no Setor de Oficinas Sul o primeiro club dedicado à música eletrônica em Brasília. O nome foi uma criação de Pedro Tapajós — sonoramente impactante, graficamente estranho, sem significado literal: Wlöd Club.
O espaço era um galpão que havia sido uma oficina mecânica. O investimento total não chegou a R$ 30 mil. Com recursos mínimos e criatividade máxima, as alunas de Arquitetura da UnB Daniela Brilhante e Flávia Goldgelb conceberam uma identidade visual baseada em insetos tecnológicos feitos de peças de automóvel encontradas na vizinhança — a Bio-Blast Corporation. Uma carcaça de fusca foi pendurada no teto. Canos de PVC com luzes coloridas substituíam a iluminação convencional. A carruagem de princesa encontrada no galpão virou a grande atração decorativa.
Na cabine, os três DJs residentes: Cnun (André Costa), Sunrise 1 (Pedro Tapajós) e eu. No primeiro sábado, mais de 500 pessoas. Em julho, ultrapassamos mil por noite — depois de uma matéria de capa no caderno Dois do Correio Braziliense.
Dentro do Wlöd, uma divisão natural foi se formando. Pedro e André aprofundavam-se no Ambient, IDM e, mais tarde, Jungle e Drum n’ Bass — trilhando as evoluções dos selos Warp e Rephlex. Eu fui firmando minhas raízes no som 4×4 do Acid, Techno e House: Paperclip People, The Advent, Jeff Mills, Robert Armani. O Wlöd foi possivelmente um dos primeiros lugares do Brasil a tocar jungle.
Para acomodar essa diversidade, criamos um Lounge — uma segunda pista experimental que antecipou em dois anos a abertura do Lov.e Club & Lounge em São Paulo, referência nacional desse conceito. Enquanto o paulistano ficava na Vila Olímpia, o nosso funcionava com móveis feitos de carcaças de carro no Setor de Oficinas Sul.
Em dezembro de 1996, Pedro e André saíram do Wlöd em meio a conflitos com o dono. O club tentou sobreviver por alguns meses, mudou de dono e de nome, e encerrou suas atividades definitivamente. A fábrica de gelo que tomou seu lugar foi a metáfora perfeita do que aconteceria a seguir.

IV. O Ano do Techno Vira Cena (1997)
Com o fim do Wlöd, a cena se dividiu — e essa divisão, como reconheci anos depois, foi produtiva. Não foi uma ruptura, foi uma multiplicação. Dois núcleos distintos, com músicas e estilos diferentes, mas com ideais semelhantes de liberdade e tolerância.
Pedro e André assumiram a MiQRa, nova casa noturna na 203 norte, onde continuaram sua pesquisa em ritmos quebrados e experimentalismo. Eu fiz o caminho oposto: construir minha própria cena ao redor do techno e do house, buscar parceiros, produzir minhas próprias festas, forjar conexões nacionais.
A Grande Tenda
Minha primeira grande aposta foi trazer o DJ Mau Mau para Brasília — o nome mais importante do techno brasileiro na época, residente do Hell’s Club em São Paulo. Depois de meses de negociação por telefone fixo, sem agência, sem e-mail, fechamos para uma sexta-feira no Park Way, na Mansão de Vidro.
A pista foi montada numa grande tenda no jardim da mansão. Construí um tablado de madeira especificamente para que o grave batesse com mais intensidade. Mais de mil pessoas foram. Quando algum break particularmente bom entrava, a pista inteira batia os pés no tablado e gritava: ‘Pode Soltar! Pode Soltar!’ — uma expressão que marcou a era.
‘Foi, sem dúvidas, na festa A Grande Tenda que percebi realmente que queria isso para minha vida, eu queria tocar nessa pista, eu queria participar dessa história.’ — DJ Ls2

O Viaduto, o Crex Crex Crub e a Churrascaria Floresta
Enquanto isso, Pedro e André — agora rebatizados como The Six e Isn’t — preparavam uma das séries de festas mais ousadas da história da cidade: o Crex Crex Crub. Doze eventos, cada um em um espaço diferente, cada um com uma concepção artística e arquitetônica elaborada ao detalhe. O nome era uma codorna — ave rara, como eles.
O espaço escolhido para o início da série foi um restaurante embaixo do viaduto da Galeria dos Estados, no cruzamento dos Eixos de Lúcio Costa — a Churrascaria Floresta, que anos depois abrigaria a Makossa, festa de Leo Cinelli e Chicco Aquino, por mais de quinze anos. Embaixo daquele concreto, entre as colunas do viaduto, a dupla fez soar Autechre, Squarepusher e ritmos que desafiavam qualquer classificação.
O flyer de abertura era uma obra: arte frente e verso, dentro do qual havia um disquete com um ovinho de codorna cozido. As artes traziam mensagens cifradas misturadas com teorias urbanísticas de Lúcio Costa. A efemeridade e a itinerância eram princípios, não limitações.

O Edifício Varig, o Park Dancing e as Conexões
Em novembro de 1997, fizemos uma festa na cobertura do Edifício Varig — no centro da cidade, com vista para Brasília iluminada. Trouxe o DJ Spiceee de Florianópolis, descoberto via lista de discussão Br-raves, a primeira rede nacional de amantes de eletrônica. Techno do início ao fim, em um lugar que ninguém havia imaginado usar assim.
O Park Dancing de 1997, realizado no Park Shopping, trouxe Mau Mau, Renato Lopes — DJ referência do Sra. Krawitz em SP — e o DJ Digit de Chicago. Era a música de Detroit e Chicago chegando ao shopping mais frequentado da cidade em uma quarta-feira à noite, com fila na porta.
A lista Br-raves e o portal rraurl.com conectaram Brasília ao resto do Brasil. Junto com o DJ Ls2, criei o fanzine TUNTISTUN — nome tirado da gíria pejorativa para a música eletrônica, o ‘bate estaca’ — especificamente para difundir o techno e o house na cidade. A provocação virou bandeira.
V. O Boom, a Caravana e o Fim de Uma Era (1998)
O ano de 1998 começou com uma viagem coletiva de réveillon para Trancoso, na Bahia — DJs de Brasília, São Paulo, Rio, BH e Florianópolis reunidos numa casa alugada com toca-discos, mixer e muitos discos. Em março, organizei uma caravana de trinta pessoas que saiu de Brasília de ônibus para São Paulo para ver Jeff Mills — a lenda de Detroit — tocar pela primeira vez no Brasil.
Quando Jeff Mills se preparou para entrar, o Mau Mau colocou Cubango, do Purpose Maker 4. Essa foi a deixa para ele entrar, e nas próximas duas horas nos presenteou com um som absurdamente intenso, com seu setup de três toca-discos e uma 909. Foi uma chave acionada na mente de muitas pessoas e DJs da cidade.
Em Brasília, 1998 foi o ano da explosão. O Deguste Jungle Bar na 302 sul se tornou escola para DJs iniciantes. A festa Lata Digital, no Iate Clube, foi coberta pelo DFTV e levou quase quatro mil pessoas ao ginásio do clube — quando esperávamos oitocentas. O 1º F.A.M.E. (Festival Aberto de Música Eletrônica) aconteceu gratuitamente no Teatro de Arena do Eixo Monumental, ao ar livre, no coração da cidade.
Era o auge. E como todo auge, carregava em si o prenúncio da queda.
Music Non Stop — e o Fim
No dia 24 de outubro de 1998, véspera das eleições para governador do Distrito Federal, fui a uma festa chamada Longevidade no Sub do Conic. Isn’t e The Six comandavam a noite. Por volta das duas da manhã, a Polícia Militar invadiu o espaço com a justificativa da Lei Seca eleitoral.
O que aconteceu a seguir tornou-se lendário. Isn’t — que naquela noite tocava apenas de cueca — subiu no palco e começou a puxar um coro com a música icônica do Kraftwerk: ‘Music Non Stop! Music Non Stop! Music Non Stop!’ O público que resistia entrou junto. Era um protesto. Era uma despedida. Era o fim de uma era.
Com a vitória e o retorno de Joaquim Roriz ao governo, iniciou-se uma política sistemática de repressão à noite alternativa da cidade. Um manual com mais de trinta páginas de regulamentos e proibições foi criado especificamente para inviabilizar a cultura noturna. Casas fecharam. As comerciais das entrequadras, que haviam sido o berço de tudo, foram silenciadas uma a uma.
O subsolo do Teatro Dulcina — onde tudo havia começado com o Goethe Institut em 1995, onde Isn’t gritara ‘Music Non Stop!’ em 1998 — ficou quieto. O viaduto da Galeria dos Estados — onde a Churrascaria Floresta havia abrigado o Crex Crex Crub — foi palco de um desabamento que destruiu o restaurante. O espaço virou uma praça. Aberta, de concreto, embaixo do viaduto.
A mola havia sido comprimida ao máximo.
VI. Trinta Anos Depois — A Mesma Mola
Em 2022, no fim da pandemia, eu, Maze One e Data Assault criamos a Trema Techno. A ideia era simples e ao mesmo tempo radical: uma festa focada exclusivamente em techno, com espírito underground, ingressos acessíveis, espaços com acesso ao transporte público. Uma resposta à necessidade de reconectar as pessoas através da música depois do isolamento.
Mas a história que a Trema carrega é muito mais longa do que sua data de fundação.
O Maze One — Maroan Kalout — foi um dos DJs que incentivei nos anos 90, quando ele frequentava as festas do Wlöd e começava a se aprofundar no techno. Somos os mesmos que trouxeram Mau Mau pela primeira vez a Brasília em 1997, que foram no ônibus para ver Jeff Mills em São Paulo, que criaram o fanzine TUNTISTUN para difundir o techno na cidade. Os dois fundadores da Trema são, literalmente, a geração que foi formada nas pistas dos anos 90 — e que agora forma a nova geração.
Os Espelhos
Os paralelos entre as duas eras não são metáforas. São o mesmo chão físico.
O Subsolo do Teatro Dulcina, onde o Goethe Institut realizou a primeira festa eletrônica de Brasília em 1995, onde Isn’t gritou ‘Music Non Stop!’ em 1998, é o mesmo espaço onde a Trema fez suas primeiras edições e continua voltando regularmente. O Sub do Conic é o nosso templo — resistiu à repressão, ao silêncio, ao tempo.
O viaduto da Galeria dos Estados, embaixo do qual a Churrascaria Floresta abrigou o Crex Crex Crub em 1997, foi destruído num desabamento que levou o restaurante junto. O espaço foi reformado e se tornou uma praça aberta — e é exatamente ali, embaixo do mesmo concreto, nesse mesmo chão que a história pisou, que realizamos nossas edições ao ar livre.
‘Debaixo do concreto… pulsa o techno.’ — Descrição da Trema Techno, julho de 2025
A frase não é nostalgia. É continuidade.
A Mesma Lógica, Novos Protagonistas
A Trema opera com a mesma lógica que animava as festas dos anos 90: ocupar espaços inusitados, democratizar o acesso, valorizar artistas locais e criar comunidade. O som vai do raw-techno ao acid-techno, de Detroit ao hard-techno — uma jornada sonora que começa suave e termina no limite, da mesma forma que eu montava os sets na Grande Tenda ou que o Mau Mau fazia no Park Dancing.
A nova geração que a Trema apresenta — Amethysta, Aeva Marceline, Evah, entre outros — é tão diversa e plural quanto a cena que nasceu ao redor do Wlöd. E assim como o Wlöd gerou Ls2, Maze One, Xandy, Arlequim, Linkage e tantos outros, a Trema está gerando os próximos nomes.
Em seus quatro anos de existência, a Trema se tornou a festa mais importante de techno em Brasília, levou o nome da cidade para o mapa nacional do estilo e provou que o que existe aqui não é uma moda. Nunca foi.
Uma Cidade, Uma Música, Uma Força
Brasília foi construída no cerrado como um projeto de modernidade. Uma cidade planejada, racional, de linha reta e eixos cruzados. Mas o que o techno revelou nela é a contradição produtiva que mora embaixo do concreto: uma cidade que por décadas lutou para ter espaço para sua própria cultura, que foi reprimida, silenciada, que perdeu casas e festivais — e que, mesmo assim, nunca parou de fazer pista.
A mola foi comprimida muitas vezes. Com a chegada de Danny Cioffi e a resistência do rock nas ruas. Com o fechamento do Wlöd. Com a invasão do Sub em 1998 e o ‘Music Non Stop!’ do Isn’t. Com o desabamento do viaduto. Com a repressão de Roriz. Com a pandemia.
E a cada vez, ela foi soltada de novo.
O techno não chegou a Brasília apesar de suas dificuldades. Chegou por causa delas. E trinta anos depois, ainda é a mola que não para de ser comprimida — e que sempre encontra uma forma de soltar.
DJ Oblongui / TUNTISTUN




