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Brasília sempre teve muitas cenas. Agora elas estão contando suas próprias histórias.

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Com nove episódios já publicados e outros ainda por vir, o Rádio Criolina Podcast reúne diferentes gerações da música do Distrito Federal. Do hip hop ao funk, do rock à música instrumental e à eletrônica, as conversas começam a formar algo maior: um registro coletivo de como Brasília construiu – e continua construindo – suas cenas.

Brasília nunca teve uma única cena musical.

Teve várias.

Algumas ganharam livros, filmes, reportagens e um lugar definitivo no imaginário brasileiro. Outras sobreviveram de uma maneira muito menos organizada: na memória de quem estava lá, em caixas de flyers, fotografias, discos, fitas, arquivos antigos e histórias repetidas durante anos entre pessoas que viveram os mesmos lugares.

Durante muito tempo, isso bastou.

O problema aparece quando uma geração começa a desaparecer da noite e outra tenta entender o que aconteceu antes dela.

Quem criou aquela festa?

Onde aquele artista começou?

Por que determinado clube foi importante?

Como um gênero chegou à cidade?

Quem já fazia aquilo quando ainda não existia nome, mercado ou público suficiente?

De repente, aquilo que parecia ser conhecido por todo mundo não está registrado em lugar nenhum.

É nesse território que o Rádio Criolina Podcast, apresentado por Barata e Pezão, começa a ganhar um significado maior do que o de uma sequência de entrevistas.

Nove episódios já foram publicados. E o percurso é amplo: discotecagem, hip hop, mulheres no rock, música instrumental, funk, produção musical, rock nas periferias, presença feminina na música instrumental e, mais recentemente, as festas que ajudam a formar cenas.

Colocados lado a lado, os episódios começam a produzir uma espécie de mapa.

Não um mapa definitivo de Brasília.

Seria impossível.

Mas um mapa feito pelas vozes de quem ajudou – e ainda ajuda – a construir sua cultura musical.

Uma cidade pode ter muitas histórias ao mesmo tempo

Existe uma narrativa sobre música em Brasília que o Brasil aprendeu a reconhecer rapidamente.

A cidade do rock.

Ela existe, foi fundamental e merece o espaço que conquistou.

Mas nunca foi a história inteira.

Enquanto parte daquela geração entrava para a história oficial da música brasileira, havia outras experiências acontecendo simultaneamente – algumas próximas, outras muito distantes daquele circuito.

Hip hop.

Música eletrônica.

Funk.

Música instrumental.

Cultura DJ.

Produção independente.

Festas fora dos circuitos tradicionais.

Bandas e festivais nas regiões administrativas.

Mulheres conquistando espaço em ambientes historicamente masculinos.

Produtores transformando encontros em movimentos capazes de durar anos.

O mérito da sequência construída pelo Criolina está justamente em não procurar uma única Brasília.

Cada episódio abre uma janela diferente.

Em um deles, duas gerações discutem hip hop e transformação social.

Em outro, o funk aparece a partir de uma pergunta especialmente interessante: o funk do Distrito Federal já tem um sotaque próprio?

A música instrumental surge olhando ao mesmo tempo para tradição e renovação.

O rock reaparece, mas deslocado daquela imagem mais conhecida do Plano Piloto: o foco passa para bandas, territórios e festivais das periferias.

E, quando as mulheres ocupam o centro da conversa, outra questão inevitavelmente aparece: quem participou da construção dessas cenas e quem acabou ficando visível quando suas histórias foram contadas?

Não são apenas gêneros musicais diferentes.

São maneiras diferentes de produzir cultura dentro da mesma cidade.

O que significa ser DJ mudou completamente

Dois dos episódios passam diretamente pela música eletrônica.

Participei dos dois.

No primeiro, Camila Jun, Fgon, Elyvio Blower e eu, Oblongui, nos reunimos para conversar sobre técnica, repertório, pista e carreira.

A pergunta inicial parece simples:

o que faz um bom set?

Mas ela rapidamente abre uma discussão muito maior sobre o que significa ser DJ hoje.

A resposta que aparece na mesa está longe de ser simplesmente dominar equipamento ou escolher boas músicas.

Um DJ precisa observar.

Entender quem está à sua frente.

Perceber a hora.

O lugar.

A energia.

E tomar decisões enquanto tudo acontece.

Elyvio diz que costuma entrar no meio do público antes de tocar. Observa as pessoas, tenta entender o estado daquela pista, escuta o sistema de som de outro ponto do espaço. É uma maneira de recolher informações que nenhuma playlist preparada em casa consegue oferecer.

Porque aquilo que parecia perfeito antes da festa pode simplesmente não funcionar quando chega a hora.

Um bom DJ precisa saber abandonar o plano.

Mas precisa, ao mesmo tempo, manter alguma coerência.

Talvez esse seja um dos grandes desafios da discotecagem: conduzir sem transformar a pista em refém do planejamento e improvisar sem transformar o set numa sequência aleatória de músicas.

A tecnologia tornou uma parte desse trabalho muito mais acessível.

Quem aprendeu a tocar com vinil conhece bem a barreira técnica que existia. Não havia BPM aparecendo na tela, formas de onda alinhadas ou sincronização automática. Manter duas músicas juntas já exigia horas e horas de prática.

Hoje parte dessa dificuldade desapareceu.

Isso é ruim?

Não necessariamente.

A mesma tecnologia que facilita a técnica permite acessar uma quantidade de música que seria inimaginável algumas décadas atrás. Nunca foi tão fácil pesquisar profundamente um artista, um selo, uma cena ou um gênero.

O desafio apenas mudou de lugar.

A técnica continua importante.

Mas repertório, leitura, escolha, construção e condução ficaram ainda mais expostos.

Do DJ escondido ao DJ superstar

Existe outra transformação que talvez seja ainda maior.

Durante muito tempo, o DJ não era necessariamente a imagem principal da festa.

Em muitos clubes, a cabine ficava escondida.

A pista olhava para a pista.

A música era o acontecimento.

Hoje, em boa parte dos grandes eventos, todo o espaço parece apontar para o palco.

O DJ se tornou também performer, produtor de conteúdo, personagem público e, em determinados segmentos, uma estrela comparável aos grandes artistas pop.

Isso não precisa ser visto como decadência.

É uma transformação.

O problema começa quando só uma dessas possibilidades parece válida.

Quando um DJ passa a ser julgado também pela quantidade de gestos que faz, pela performance diante das câmeras ou pela capacidade de produzir o próximo momento de vídeo, corre-se o risco de esquecer que artistas diferentes sempre tiveram maneiras diferentes de ocupar uma cabine.

A música eletrônica comporta o espetáculo.

Mas também precisa continuar comportando lugares nos quais a pista seja a protagonista e o DJ funcione principalmente como condutor.

É por isso que a discussão sobre o desaparecimento dos clubes aparece com tanta força na conversa.

Um clube não é apenas um lugar onde se vende bebida e se instala um sistema de som.

Ele forma público.

Permite que DJs experimentem.

Cria recorrência.

Desenvolve códigos.

Faz com que determinadas linguagens sejam ouvidas mais de uma vez.

Um grande festival pode apresentar um artista para milhares de pessoas.

Um pequeno espaço recorrente pode formar centenas delas.

São funções diferentes.

Uma cena precisa das duas.

A ansiedade também chegou à cabine

O tempo do set mudou.

O tempo da música mudou.

O tempo da comunicação mudou.

E o tempo das pessoas também.

No episódio, surge uma discussão sobre uma geração de DJs que muitas vezes se acostumou a tocar sets de uma hora ou uma hora e meia – e que raramente teve a oportunidade de desenvolver repertório e experiência suficientes para sustentar três, quatro ou seis horas de pista.

Mas seria fácil demais transformar isso numa crítica à juventude.

O próprio público também mudou.

As redes foram organizadas em torno de estímulos sucessivos.

Vídeos ficaram mais curtos.

As músicas encurtaram.

Os momentos precisam chegar rapidamente.

E esse comportamento inevitavelmente entra na pista.

A questão, portanto, não é simplesmente dizer que os DJs de antes tinham mais repertório ou que o público de antes sabia ouvir melhor.

O mais interessante é perceber que uma mudança cultural produz outra.

O mercado oferece sets menores.

Os DJs treinam menos sets longos.

O público se acostuma a mais trocas.

Os artistas passam a sentir que precisam entregar impacto rapidamente.

E o ciclo se retroalimenta.

A pergunta mais útil talvez seja outra:

como preservar características importantes da cultura da discotecagem sem transformar o passado numa regra?

Porque existe um perigo igualmente grande em olhar para qualquer mudança e concluir que antes era melhor.

Cultura que não muda deixa de ser cultura viva.

Ela vira peça de museu.

De onde veio tudo isso?

É justamente aí que memória deixa de ser nostalgia e passa a ser ferramenta.

No episódio mais recente do podcast, Eva, Tony Rocks, Fibo e eu conversamos sobre festas que formam cenas.

E uma das primeiras perguntas nos levou imediatamente ao passado:

qual foi a primeira festa de música eletrônica que mudou alguma coisa para você?

A minha resposta voltou para 1992.

A festa se chamava God Saves Technology.

Foi uma noite ligada ao Isn’t/The Six e aconteceu num espaço que marcou aquele período da cidade.

Pouco depois dessa experiência, fui para São Paulo.

Passei a frequentar clubes, ficar dentro das cabines observando DJs e estudar aquela cultura que começava a fazer sentido para mim.

Voltei para Brasília em 1994.

Dois anos depois, surgiu o Wlöd.

Hoje essa sequência pode ser contada em poucas linhas.

Na época, ela não tinha sequência nenhuma.

As coisas simplesmente estavam acontecendo.

Talvez esse seja justamente o valor de registrar essas conversas enquanto seus protagonistas ainda conseguem reconstruir os caminhos.

Uma pergunta sobre ‘qual foi sua primeira festa?’ acaba revelando como pessoas se conectaram, como aprenderam a tocar, quais clubes frequentavam, por que decidiram permanecer em Brasília e como determinados espaços apareceram.

O Wlöd e uma Brasília que ainda estava aprendendo a fazer clubes

A história do Wlöd é um bom exemplo.

A oportunidade surgiu quase por acaso.

Havia alguém interessado em investir numa casa noturna. A partir daí começou a procura por um lugar.

A escolha acabou recaindo sobre um galpão no Setor de Oficinas Sul, numa época em que fazer uma boate naquele território estava longe de ser uma decisão óbvia.

O espaço precisou ser construído praticamente do zero.

Móveis foram improvisados a partir de materiais encontrados nas oficinas da região. Bancos de automóveis viraram mobiliário. Elementos visuais foram criados pela própria equipe. Em determinado momento, até parte de um Fusca foi parar suspensa na decoração.

A primeira noite recebeu cerca de 500 pessoas.

Depois 300.

Em outro momento, 900.

Quando o público começou a passar regularmente de mil pessoas, uma segunda pista foi aberta.

É fácil olhar para uma casa depois que ela se torna referência e imaginar que existia um projeto perfeitamente desenhado desde o começo.

Quase nunca é assim.

Cenas culturais normalmente são construídas em condições menos organizadas do que suas histórias posteriores fazem parecer.

Alguém encontra um galpão.

Alguém sabe onde conseguir equipamento.

Outro conhece artistas.

Outro entende de luz.

Outro convence o proprietário.

Alguém resolve um problema que nem sabia que existia.

E, em algum momento, um lugar começa a significar alguma coisa para centenas de pessoas.

Produzir festa é muito menos glamouroso do que parece

Essa talvez seja uma das contribuições mais interessantes do episódio sobre produção.

Grande parte do público vê o evento pronto.

Luz ligada.

DJ tocando.

Bar funcionando.

Gente dançando.

Quem produz conhece outra festa.

A que começa muito antes da abertura dos portões.

Alvarás.

Geradores.

Segurança.

Fornecedores.

Banheiros.

Energia.

Equipe.

Montagem.

Desmontagem.

Transporte.

Burocracia.

Chuva.

Vizinhança.

Planilha.

E problemas que ninguém imaginou que poderiam acontecer.

No episódio aparecem histórias de festas de 24 horas, eventos ameaçados por falta de autorização, geradores que ficam sem combustível, festas interrompidas antes do horário por excesso de público e uma sucessão de situações que ajudam a destruir a imagem romantizada do produtor cultural.

Talvez a frase que melhor explique esse trabalho apareça quase de passagem:

não existe manual.

Você aprende fazendo.

E, muitas vezes, errando.

É por isso que experiência também deveria ser entendida como patrimônio de uma cena.

Quando alguém produz eventos há dez ou vinte anos, não acumulou apenas histórias engraçadas.

Acumulou soluções.

Relações.

Conhecimento sobre a cidade.

Sobre público.

Sobre legislação.

Sobre fornecedores.

Sobre aquilo que funciona e aquilo que provavelmente dará errado.

Quando esse conhecimento não é transmitido, cada geração precisa quebrar a cara novamente.

Quanto custa manter uma cena viva?

Em outro momento, a conversa chega a uma questão menos divertida, mas inevitável:

dinheiro.

Festas independentes precisam sobreviver.

E Brasília vive há algum tempo uma relação complexa com eventos gratuitos, cortesias, patrocínios e a disposição do público para pagar ingresso.

Minha posição nessa conversa não é contra festas gratuitas.

Se existe um modelo no qual o bar, um patrocinador, um edital ou outra fonte consegue pagar a operação, ótimo.

O problema aparece quando não existe modelo nenhum.

Porque alguém sempre paga a conta.

A pergunta que me interessa mais é outra:

o público percebe valor naquilo que estamos construindo?

Quando percebe, existe disposição para pagar.

E valor não significa necessariamente luxo, tamanho ou um grande artista no line-up.

Pode estar na identidade.

No cuidado.

Na curadoria.

No espaço.

Na comunidade.

Na experiência.

Na sensação de pertencimento.

Brasília possui uma força que às vezes a própria cidade subestima.

Tem público.

Tem DJs.

Tem produtores.

E artistas que chegam de fora frequentemente percebem uma energia que quem vive aqui todos os dias já naturalizou.

O desafio não é provar que existe uma cena.

Ela existe.

O desafio é descobrir como torná-la sustentável.

Brasília tem um som?

Em determinado momento do episódio surge uma pergunta inevitável:

qual é o estilo de Brasília?

Techno?

House?

Trance?

Talvez nenhum deles.

Ou todos.

Minha impressão é que Brasília não possui necessariamente um gênero capaz de representar toda a cidade.

Mas talvez exista uma sonoridade brasiliense.

Uma maneira de fazer pista.

A própria cidade interfere nisso.

Brasília vive o céu aberto.

Grandes espaços.

Meses de seca.

Eventos fora de clubes tradicionais.

Uma relação diferente com rua, distância, arquitetura e território.

Tudo isso altera a maneira como a festa acontece.

E existe outra característica importante.

Brasília sempre foi feita de gente que veio de muitos lugares.

Talvez por isso seja difícil estabelecer uma tradição musical única e rígida.

As referências chegam de vários pontos, são recombinadas aqui e acabam produzindo outra coisa.

Não necessariamente um gênero.

Talvez um jeito.

Uma cena não cresce trazendo todo mundo de fora

No primeiro episódio aparece outra discussão necessária.

Durante muito tempo, cenas fora do eixo Sul-Sudeste aprenderam a validar seus eventos pela atração de fora.

O convidado chega.

Ocupa o horário principal.

Recebe o maior cachê.

Vai embora.

Enquanto isso, os artistas que constroem aquela pista durante o ano inteiro muitas vezes aparecem nos horários periféricos.

Isso não significa que devemos parar de trazer artistas.

Muito pelo contrário.

Circulação é fundamental.

Foi assim que cenas se conectaram durante décadas.

O problema é quando circulação vira uma relação de mão única.

Quando alguém vem, recebe e parte sem que exista troca.

Uma cidade culturalmente madura precisa conseguir olhar para seus próprios artistas como atrações.

Na TREMA, tenho tentado trabalhar justamente com essa lógica: convidados existem, mas o fato de alguém vir de outra cidade não significa automaticamente que essa pessoa receberá o principal horário da noite.

Artistas locais também precisam ocupar o centro da própria história.

E isso vale para Brasília dentro do Brasil.

O Centro-Oeste produziu e continua produzindo artistas capazes de circular nacional e internacionalmente.

A questão não é se fechar.

É entrar nessa circulação sabendo o próprio valor.

Quem vai aparecer quando essa história for contada daqui a vinte anos?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que aparecem ao longo de toda a temporada.

Porque memória não é apenas sobre o que aconteceu.

É também sobre quem foi registrado.

Durante décadas, inúmeros flyers de música eletrônica praticamente não tinham mulheres no line-up.

Hoje isso começa a mudar.

E não muda apenas porque apareceram mais mulheres interessadas em tocar.

Oportunidade produz experiência.

Experiência produz qualidade.

Qualidade produz confiança.

Confiança produz melhores horários.

Melhores horários produzem visibilidade.

Visibilidade inspira outras pessoas.

É por isso que, numa das discussões do primeiro episódio, resumi a questão de maneira bastante simples:

é matemática.

Se determinado grupo recebe menos oportunidades, cachês menores e horários menos importantes, haverá menos gente desse grupo chegando às posições de maior visibilidade.

Não existe mistério.

Essa talvez seja uma das maiores diferenças quando olho para festas hoje.

Nos anos 1990 já existia um desejo de construir pistas onde diferentes pessoas pudessem estar juntas.

Mas havia limites muito evidentes.

Hoje entro em determinadas festas e vejo uma diversidade de identidade, estética, classe social e gênero que décadas atrás existia em escala muito menor.

Na TREMA isso talvez seja uma das coisas que mais me realizam.

Ver pessoas que passam boa parte da semana tentando se encaixar encontrando, por algumas horas, um espaço onde não precisam fazer isso.

Esse também é desenvolvimento de cena.

Não aparece numa planilha de ingressos.

Mas talvez seja um dos resultados mais importantes.

A próxima geração não deveria precisar começar do zero

No episódio sobre produção, em determinado momento surge um conselho para quem está começando.

E a conversa inevitavelmente chega ao tempo.

Existe hoje uma ansiedade enorme para que tudo aconteça rapidamente.

Um ano tocando parece muito.

Seis meses produzindo uma festa parecem suficientes para esperar resultados.

Duas edições sem crescimento podem parecer um fracasso.

Mas cenas culturais não obedecem ao tempo das redes sociais.

Construir repertório leva tempo.

Entender público leva tempo.

Aprender produção leva tempo.

Construir confiança leva tempo.

Errar leva tempo.

Acertar também.

Isso não significa reproduzir as dificuldades do passado como ritual obrigatório.

Ninguém precisa levar seis anos para aprender algo simplesmente porque outra geração levou.

Seria absurdo.

A tecnologia existe justamente para eliminar barreiras.

Mas eliminar barreiras não elimina processo.

Paciência e estudo continuam sendo partes fundamentais dessa construção.

Talvez seja justamente aí que memória tenha sua função mais prática.

Conhecer o caminho de quem veio antes não serve para ensinar uma nova geração a repetir esse caminho.

Serve para que ela não precise começar sem mapa nenhum.

Um podcast também vira documento

Hoje esses episódios são conteúdo.

Uma conversa de uma hora.

Um vídeo no YouTube.

Alguns cortes.

Comentários.

Visualizações.

Daqui a vinte anos podem significar outra coisa.

Imagine alguém em 2046 tentando entender como produtores de Brasília pensavam a sustentabilidade de suas festas em 2026.

Como DJs enxergavam a entrada da tecnologia na cabine.

Por que o techno acelerou.

Como o funk do Distrito Federal construía identidade.

O que mulheres da música diziam sobre espaço e representação.

Como funcionavam as festas nas periferias.

Por que clubes estavam desaparecendo.

Como artistas locais enxergavam a relação com o eixo Sul-Sudeste.

Ou o que significava produzir um evento independente numa cidade conhecida pela complexidade de seus espaços e de sua burocracia.

Essa pessoa talvez encontre esses episódios.

E aquilo que hoje parece apenas uma conversa entre pessoas em volta de uma mesa passará a funcionar como fonte.

É assim que documentos culturais surgem.

Nem sempre alguém decide previamente:

‘vamos registrar a história’.

Às vezes alguém simplesmente liga o microfone.

Memória não é olhar para trás

O mais interessante do Rádio Criolina Podcast talvez seja justamente o fato de que essas conversas não estão acontecendo depois que tudo terminou.

As cenas continuam vivas.

As pessoas continuam tocando.

Produzindo.

Criando.

Errando.

Mudando de opinião.

Disputando espaço.

Abrindo festas.

Fechando outras.

A memória está sendo construída enquanto a história ainda acontece.

E talvez esse seja o melhor momento para registrá-la.

Porque Brasília não precisa de uma versão definitiva de sua cultura musical.

Provavelmente nem deveria ter uma.

São muitas cidades coexistindo dentro da mesma cidade.

Muitas gerações.

Muitos territórios.

Muitas pistas.

Muitas maneiras de entender o que significa fazer música.

Os nove episódios publicados até agora não dão conta de tudo isso.

Os próximos também não darão.

Mas cada nova conversa acrescenta uma peça.

Uma pessoa lembra de um lugar.

Outra lembra de um nome.

Uma história corrige outra.

Um período ganha detalhes.

Uma geração encontra a seguinte.

E pouco a pouco fica mais difícil dizer que nada disso foi registrado.

Brasília sempre teve muitas cenas.

Talvez esteja apenas começando a perceber que contar suas próprias histórias também faz parte de mantê-las vivas.

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