DJ Goye: Música como linguagem, pista como território

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Entre cidade, corpo e êxtase, Goye fala sobre formação, pesquisa musical, presença política e a pista como espaço de liberdade.

Quando você olha para trás, qual foi o momento em que percebeu que a música eletrônica deixaria de ser interesse e passaria a ser linguagem de vida?

A primeira vez que fui a uma festa de techno, logo depois de me mudar para Brasília, vivi algo que foi quase uma experiência transcendental. Eu não entendia muito bem como tudo funcionava, nem o que aquelas pessoas estavam fazendo ali. Vinda do interior, tudo era muito diferente do que eu conhecia.

Mesmo sem entender, senti que aquilo me atravessou de um jeito muito forte. Lembro de pensar: “Meu Deus, eu preciso entender o que é isso. Eu preciso reproduzir isso do meu jeito.”

Desde então, o que me move é a vontade de passar essa sensação adiante — criar, através da música, a mesma experiência de êxtase que senti naquele momento.

Como o território onde você se formou — cidade, cena, festas, pessoas — moldou a forma como você constrói seus sets hoje?

O território onde me formei — tanto a cidade quanto as pessoas — moldou diretamente a forma como construo meus sets hoje. Vim de um lugar onde o acesso à cena era limitado, então quando entrei em contato com a música eletrônica mais intensa, isso veio como um choque e uma revelação.

A cidade me ensinou a observar, a escutar com atenção e a valorizar cada descoberta. As pessoas ao meu redor, com vivências muito diferentes da minha, me mostraram que a pista é um espaço de troca e catarse coletiva.

Isso influencia meu jeito de tocar: penso o set como um percurso, com momentos de tensão, explosão e suspensão. Misturo vertentes, acelero o BPM e experimento sem medo, porque minha formação vem desse desejo de entender o que me atravessou lá atrás e transformar isso em movimento, corpo e êxtase na pista.

O que você busca provocar emocionalmente em uma pista quando está tocando? Existe algo que você sempre tenta preservar, independentemente do contexto?

Quando estou tocando, busco provocar um estado de entrega. Quero que as pessoas esqueçam o que está fora da pista e se permitam sentir o corpo, o som e o momento. Gosto de trabalhar emoções que passam pela tensão, pelo êxtase e pela liberdade — aquele instante em que a mente desacelera e o corpo assume.

Independentemente do contexto, sempre preservo a intenção. Tocar com verdade, criar um espaço seguro e intenso ao mesmo tempo, onde cada pessoa possa se expressar sem julgamento.

Também amo tocar para garotas. Construo momentos no set pensando nelas, em sons que geram identificação, confiança e prazer — aquele momento inevitável de soltar uma reboladinha, se reconhecer na batida e ocupar a pista com presença. Pra mim, a pista é isso: corpo, emoção e liberdade se encontrando no som.

Seu processo de pesquisa musical é mais intuitivo ou metódico? Como você organiza esse “garimpo” no dia a dia?

Meu processo de pesquisa musical é majoritariamente intuitivo, com alguns momentos de organização. O garimpo nasce da curiosidade: gosto de navegar por camadas de subgêneros, ir fundo neles, entender texturas, ritmos e atmosferas.

O que mais me interessa é encontrar conexões entre universos que, à primeira vista, parecem distantes. Esse trânsito entre estilos acaba moldando uma estética própria — ou talvez uma estética que se recusa a ser fixa.

Eu vario muito de propósito. Gosto dessa liberdade de não me limitar a uma única linguagem e de experimentar sem medo. Ao mesmo tempo, existe uma escuta atenta da pista: leio o ambiente, sinto as pessoas e penso em como cada corpo pode se reconhecer em algum momento do set. Essa diversidade é algo que preservo e cultivo.

Em um cenário cada vez mais acelerado e guiado por tendências, o que significa para você construir uma identidade sonora própria?

Pra mim, significa não correr atrás do que está em alta, mas aprofundar o que me atravessa de verdade. É confiar no meu gosto, no meu repertório emocional e na minha relação com a pista.

Minha identidade nasce desse movimento constante entre experimentação, sensibilidade e leitura de público — uma identidade viva, mutável, que se constrói a cada set.

Você sente que a pista mudou nos últimos anos? Como isso impacta seu trabalho como DJ?

Sinto que percebo muitas mudanças a partir da minha própria vivência, justamente porque sou nova nesse universo. Meu contato com a cena é recente, então meu olhar é mais de descoberta do que comparativo.

Ainda assim, olhando para o contexto histórico, é impossível não perceber contradições: a música eletrônica nasce de corpos e vivências pretas, mas hoje ocupa muitos espaços majoritariamente brancos. Tenho o desejo — e a expectativa — de ver esse cenário se transformar, com mais pessoas pretas, trans e dissidentes ocupando a pista, a cabine e os bastidores.

Isso impacta diretamente meu trabalho porque reforça a importância de estar ali com consciência. Não apenas como DJ, mas como corpo presente, criando espaço, referência e possibilidade. Tocar também é um gesto político, mesmo quando o foco é a diversão.

Existe algum set, festa ou experiência que tenha redefinido sua relação com a música eletrônica?

Um set que redefiniu minha relação com a música eletrônica foi quando toquei numa Fairy no Birosca, ao lado da DJ Marceline. Eu ainda era muito iniciante na mixagem e costumava ficar bastante tensa.

Nesse dia, algo virou: eu me diverti de verdade. Dancei, sorri, me senti confortável. Entendi que, apesar de estar ali para o público, eu também estou ali por mim.

Essa virada mudou completamente minha relação com os sets seguintes — hoje, tocar é sobre prazer, presença e liberdade. Quando eu me divirto, a pista sente.

Como você enxerga o papel de corpos dissidentes dentro da cena eletrônica hoje?

Vejo corpos dissidentes como forças de entrega real. Para além do discurso, a própria presença já é representatividade.

Quando esses corpos ocupam a cabine, não estão só tocando música: estão entregando cultura, vivência e atravessamentos. Isso transforma o rolê em algo maior do que entretenimento — vira espaço de reflexão, troca e deslocamento. É ali que a cena pulsa de verdade.

Além da técnica, o que sustenta uma carreira longeva na música eletrônica?

Acredito que criatividade e curiosidade sustentam uma carreira. A vontade constante de aprender, acompanhar movimentos, mas sem perder a própria linguagem.

Também é saber filtrar tendências e entender que todo mundo está no mesmo corre: conviver, evitar conflitos desnecessários e construir relações com respeito dentro da cena.

O que você gostaria que alguém sentisse ao sair da pista depois de te ouvir tocar pela primeira vez?

Gostaria que a pessoa saísse pensando:
“Caralho, essa travesti mudou a química do meu cérebro.”

Que sentisse que algo foi deslocado ali dentro. Assim como um dia fui inspirada, quero inspirar outros artistas de verdade. Que minha energia seja contagiante, e que o set seja lembrado não só pelo som, mas pela sensação — pela liberdade, presença e entrega que atravessaram a pista.

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