Cabine, microfone e bastidor: quem constrói a narrativa da cena
Você vive a cena em três lugares diferentes: cabine, bastidor e microfone. O que muda na sua percepção da música eletrônica quando você está entrevistando alguém, em vez de tocando?
Eu comecei a tocar depois de já estar atuando como entrevistador, já ter trabalhado na produção de festas e comandar um canal de sets. Desde o começo a intenção de tocar estava lá, mas tive que resolver algumas questões primeiro.
Lembro que antes eu olhava para o DJ como se ele fosse uma entidade. O ato de entrevistar um artista desconstrói aquela imagem idealizada. Ele te conta sobre suas fragilidades, sonhos, experiências.
Você também pode dar voz aos entrevistados, que muitas vezes têm o que reclamar e também inspirar através das histórias contadas.

No Vórtice Talk, você escuta artistas de diferentes gerações e vertentes. Existe alguma inquietação recorrente que aparece nas conversas?
Acho que dois fatores aparecem bastante: oportunidade e produção de eventos.
O DJ quer tocar, mas nem todos abrem espaço. Sempre existem as famosas “panelas”, então muitos acabam criando suas próprias festas. Alguns conseguem investir mais dinheiro e montar eventos de médio ou grande porte, mas muitas vezes o público não é suficiente para fechar a conta.
Isso faz com que alguns produtores desistam. Outros insistem, aprendem sobre o mercado e com o tempo vão consolidando suas marcas.
Também existem conflitos entre produtores independentes: festas marcadas na mesma data, intrigas, fofocas… coisas que fazem parte da natureza humana.
À medida que uma marca cresce, fica mais difícil montar o line-up. Aumenta o número de DJs querendo tocar e a festa precisa continuar atrativa.
Hoje temos muitos DJs — talvez até demais. O mercado fica saturado e o artista precisa buscar diferenciais: produzir música, fazer live, desenvolver algo próprio.
Outro ponto é a falta de valorização do artista nacional. Muitas vezes o DJ precisa tocar fora do país para ser reconhecido aqui.
Como curador da Subcultura Musik, o que faz você realmente prestar atenção em um artista?
Hoje somos um time de quatro curadores no Subcultura Musik. O canal trabalha com cinco podcasts, cada um abordando um estilo.
Gostamos muito de abrir espaço para novos artistas. Muita gente que passou por ali estava participando do primeiro podcast da carreira.
Também observamos DJs que já estão fazendo um trabalho expressivo e se destacando.
E, claro, também é interessante trazer nomes consolidados que dialoguem com o perfil da marca.

Na sua visão, o que diferencia um DJ tecnicamente competente de um DJ que constrói identidade e trajetória?
Um DJ tecnicamente competente domina a arte da mixagem, faz boa pesquisa musical, sabe conduzir a pista e entende de soundsystem. É o tipo de artista que sempre entrega.
Construir identidade já é outra camada. É como assumir uma persona, trabalhar um nicho específico ou até alguns nichos.
No momento atual da música eletrônica tudo está muito segmentado. Muitos artistas trabalham dentro de um território sonoro bem definido.
Trajetória, por sua vez, é sobre tempo e história. O artista passa por altos e baixos, experimentações, parcerias e, quem sabe, acaba deixando um legado.
São Paulo é uma cidade que pode projetar artistas ou diluí-los no excesso. Como ela moldou sua relação com a pista?
Essa pergunta é braba! (risos)
Como eu disse antes, eu participei de projetos na música antes de começar a tocar. As pessoas sempre me perguntavam quando eu ia começar a tocar, já que eu tinha muitos contatos.
Comecei a tocar há dois anos e achei que teria mais abertura por causa do network, mas me deparei com a realidade.
Recebi poucos convites até agora. Conseguir uma gig em São Paulo não é tão simples assim.
Venho tentando entender o mercado: o que faz um artista se destacar?
Personalidade, identidade, produção musical, criar uma festa…
Esse negócio de network também tem suas camadas. Não é sobre quantas pessoas você conhece, mas sobre quem você conhece e a relação que constrói com essas pessoas.
Sobre a pista, quase todas as gigs que fiz até agora foram warm-ups de festas de techno ou eventos que começavam no techno e depois iam para o hard. Muitas vezes era preparar o terreno para algo mais intenso que viria depois.
Quero tocar mais, em horários diferentes, entender melhor as nuances da pista.

Falando do Jeroni DJ: como você define seu som hoje?
Eu toco o que gosto: techno atemporal.
Às vezes aparecem elementos que estão em alta, como o hipnótico ou o hard groove, mas sempre dentro de uma estética que faça sentido para mim.
Meu som costuma ser um techno mais aberto, sempre com groove no bassline, às vezes com peso e alguns elementos de industrial.
Já me perguntei se deveria soar mais dentro dessas nomenclaturas para ter sucesso, mas optei por seguir o que realmente gosto e construir minha personalidade a partir disso.
Quais artistas você admira pela forma como constroem presença na pista?
Gosto muito de nomes como:
DVS1, Oscar Mulero, Mau Mau, Aninha, Rødhad, Murphy, Insolate, Ben Klock, Dax J, Rush e Speedy J.

Você acredita que a cena brasileira está evoluindo ou apenas repetindo modelos?
Dentro do nicho underground eu escuto muitas reclamações.
O pessoal fala muito sobre falta de união e sobre ego.
Artistas mais antigos dizem que pouca coisa mudou ao longo do tempo.
Também é um meio ingrato, porque você precisa estar sempre gerando conteúdo para continuar relevante.
Eu mesmo atuei como booker por um tempo para o coletivo Hail The Light e não deu certo. Cheguei à conclusão de que o underground nacional ainda não tem maturidade suficiente para trabalhar com bookers — simplesmente não existe mercado estruturado para isso.
Acredito que a cena underground precisa de investidores que enxerguem potencial nesse universo. Na Europa isso já funciona como uma indústria. Com estrutura, tudo muda.
O que você percebe quando escuta ou encontra artistas de Brasília?
Brasília é uma cidade muito artística.
Em 2024 eu tive uma imersão no rock nacional e Brasília sempre aparecia como referência — às vezes como protagonista.
A própria história da cidade inspira arte.
Quando falamos de música eletrônica, dos artistas que conheci sempre percebi muito groove no som.
Já ouvi trabalhos de artistas como Keylero, Weirdo, Barbie Mello, Turambar, Moranga, Isa 49, Evah, Ayume e também vocês da Trema.
Ainda não conheço a cena de perto, mas estou curioso para viver essa experiência e tocar por aí.

Entre tocar, entrevistar e curar, o que mais te desafia hoje?
Sem dúvida, tocar.
Essa frente exige estudo, treino, disciplina, paciência e também sabedoria para lidar com o mercado.
Tocar também interfere nas outras áreas. Como o DJing veio depois do entrevistador e do curador, muita coisa mudou quando comecei a tocar.
Passei a ter um olhar mais crítico na curadoria e também mais empatia ao entrevistar artistas.
Existe sim um conflito entre o artista e o observador. Quando lancei meu projeto como DJ e senti na pele como funciona o mercado, fiquei um pouco frustrado.
Antes de tocar tudo parecia mais leve. Eu observava a cena apenas pelo que me atraía.
Hoje às vezes me pego comparando meu trabalho com o de outros artistas, o que pode gerar sentimentos negativos.
O caminho é focar em aprender. Observar quem está tocando, absorver técnica, postura e atitude diante da cena.
Nossa mente é traiçoeira. Leva tempo aprender a lidar com isso.




