publicidade

Lollapalooza 2026 e o underground brasileiro: uma potência que não pode mais ser ignorada pelo mercado.

Compartilhe

Há quem diga que o underground é sinônimo de pequeno; outros, que suas sonoridades são pesadas ou too much para as massas. Mas, na última semana, a cidade de São Paulo foi palco de acontecimentos históricos na música eletrônica brasileira que vão na contramão desses sensos comuns.

O Palco Perry’s e a Presença do Underground no Lollapalooza

Nesse último fim de semana (20, 21 e 22 de março), ocorreu mais uma edição do Lollapalooza, contando com headliners que vão desde divas pop como Sabrina Carpenter e Lorde até bandas como Turnstile e o icônico rapper Tyler, The Creator. Mas o que de fato chama atenção para nós, fiéis ao público de música eletrônica e frequentadores dos circuitos brasileiros, foi o que aconteceu no palco Perry’s do festival, o tradicional palco destinado à música eletrônica.

Artistas Brasileiros do Underground em Destaque

Indo na contramão do que já foi o passado dos festivais brasileiros, com nomes repetidos do mainstream, como Dubdogz, Vintage e outros artistas desses circuitos que dominam os lineups do cenário eletrônico médio brasileiro, em mais um ano de Lollapalooza contamos com grandes nomes do underground nacional, como Idlibra, Alírio, Entropia, Zopelar e Analu. Não sendo um movimento isolado, nos últimos anos a presença de nossos artistas em festivais de grande porte tem aumentado consideravelmente. Podemos citar: Tomorrowland, contando com Cashu, Ananda, Badsista e RHR; Time Warp, com Delcu, Tessuto, Ananda, Alírio, Etcetera, Slim Soledad e Nora; Só Track Boa, com o palco Luvlab direcionado a sonoridades underground, trazendo nomes do funk como DJ Bassan, Crazed e Caio Prince; e até a edição do Lolla 2025, trazendo Cashu, Agazero e Due.

Claro, estamos longe de ocupar o espaço que merecemos enquanto cena, enquanto potencialidades artísticas que já demonstraram ser tão relevantes quanto muito gringo que vem e subestima nossas pistas. No entanto, tenho certeza de que ao fazermos uma genealogia dos últimos 10 anos no cenário eletrônico brasileiro, é inegável perceber que houve um aumento da presença de talentos underground em grandes festivais. E isso, meus amigos, definitivamente não é algo que podemos ignorar, apesar de grande parte do mercado eletrônico do país fingir que esse movimento não é uma crescente — e uma crescente potente. E, quando eu falo “mercado”, não me refiro apenas a festivais, clubs e pistas que movimentam a economia musical do país, mas principalmente dos veículos midiáticos. Afinal, por que continuam a ignorar um movimento que já está nos radares do mundo?

O Crescimento do Underground Brasileiro nos Últimos Anos

Há tempos, os circuitos underground, de norte a sul do país, têm se mostrado uma grande potência musical. Idlibra, por exemplo, que comandou a pista do Lolla no fim da tarde de domingo, possui uma carreira consistente que vai de Recife a São Paulo, extravasando as fronteiras brasileiras e atingindo a Europa. Trazendo um repertório que vai da bass music ao latin club (e muito além), sua pista trouxe uma energia que, sinceramente, a curadoria do festival pecaria em não se inspirar novamente no próximo ano. Afinal, acho que o velho 4×4 do house comercial já deu, né?

E, se o assunto for house music, Alírio foi definitivamente um dos destaques do dia. Com uma seleção repleta de autorais e de produções de outros artistas brasileiros e latinos, seu set foi recheado de percussões, bass e timbres que acho até difícil colocar em palavras. Uma seleção de grooves moderna, cunt, instigante e nada previsível.

Para mim, definitivamente, a sequência das duas artistas é mais do que “um refresco”. em um circuito que tradicionalmente prioriza aquele (nem tão) bom e velho som comercial de homens brancos do mercado eletrônico brasileiro. É, sobretudo, um manifesto de uma cena que não é apenas underground, mas QUEER: duas travestis entregando o que nossa cena tem de mais contemporâneo e futurista. Sonoridades que, não à toa, as têm levado mundo afora, de Berlim a Nova York. Uma conquista que tem também uma baita importância coletiva, e que enquanto pessoa queer que escreve este texto, não posso deixar de exaltar.

O Underground Como Movimento Cultural Coletivo

E acho importante fazer essa delimitação de “undergroud”: 

Esse “underground brasileiro” uno e delimitado não passa de uma ficção; o que existe são pluralidades que é até difícil capturar em um termo. É o underground do techno? Do psytrance? Do house? Eu, particularmente, gosto de chamar de QUEER, LGBT, rolê de travesti, de bicha e de sapatão — uma tradição contemporânea, pós-moderna, por assim dizer, que ressoa Brasil afora, que recusa definição de gênero e que está à frente do seu tempo. Dá até inclusive para problematizamos essa classificação, mas sinceramente? Acho que pouco interessa, “underground” é sobretudo sobre movimento cultural, sobre uma lógica de abordagem de mundo a partir da música. Apesar de poder abarcar muitas outras questões, principalmente economicas. Acho importante não nos apegarmos muito na problematização desse termo para entendermos o ponto que quero chegar nesse texto, e as nuances dos artistas e circuitos que aqui mencionamos.

E é nisso que repousa a significância de artistas como Idlibra e Alírio em um lineup desses. Tem história e legado. Tradição (no sentido ‘historicidade de um movimento cultural-sonoro’) que, eu diria, teve uma de suas primeiras reverberações com o surgimento da Mamba Negra, à qual, não coincidentemente, as duas artistas estão profundamente ligadas — e que também nos leva à nossa outra estrela do dia: Entropia. Que adiciona ao lineup uma outra camada quando a gente pensa no consumo musical em festivais. Com seu live set e sua destreza com as máquinas, sua conquista vem de muitos anos de trabalho e dedicação, seja como parte da Mamba Negra ou como um dos pilares do grupo Teto Preto. 

Realmente, se olharmos cada história por trás desse lineup, vemos que tem um hiper peso histórico para nós, clubbers e artistas do underground brasileiro. E, falando em tradição, é impossível falar desse contexto sem mencionar um dos seus afluentes, e de certa forma acho que atravessa a curadoria deste ano. Movimento que surgiu ali quase no meio dos anos 2010: crias da Voodoohop, dos movimentos eletrônicos de rua. De também festas como CapsLock e ODD. E é aí que chegamos em outra figura do dia: Zopelar, uma das mentes por trás da icônica ODD, que surgiu naquela mesma efervescência da cidade de São Paulo pós Voodohop. Com um set de pôr do sol marcado por timbres brilhantes que vão do house ao bass house, Zopelar foi a última atração nacional a tocar no Perry’s antes de a noite cair e os gringos assumirem o comando do palco, no que culminaria na headliner da noite, a “cuntíssima” Peggy Gou.

História? Temos! Peso? Também temos! Talento? De sobra. Afinal, o que falta para nossos artistas terem direito a uma fatia do bolo do mercado eletrônico brasileiro? As últimas conquistas têm sido incríveis? Sim. Mas, diante de tanta história — que não vem só dos movimentos pós-2010, mas desde os anos 90, das pistas da A Loca, das noites da Soundfactory, das mãos de DJ Marky, MauMau, Sub, DJ Murphy e EliIwasa —, não é o suficiente.

Os artistas que moldam o presente e o futuro da música eletrônica merecem muito mais do que uma cota em lineups de festivais que tentam se mostrar diferentes, mas pagam cachês ínfimos e colocam nossas potências apenas para abrir as pistas. E é engraçado, porque, enquanto em solo nacional o grande mercado musical ignora a existência dessas sonoridades e desses artistas, os gringos estão de olho há muito tempo. E essa mesma semana está aí para mostrar isso para a gente, com o exemplo que um dos grandes nomes da bass music, Skrillex, deu.

Não, gente… além de um show f*dido no palco Samsung do festival, Skrillex chegou em São Paulo fazendo isso e muito mais. Depois de sua recente colaboração com o DJ brasileiro RHR no ep Gíria, um dos nossos grandes nomes de exportação, que faz magia misturando funk e bass music, o gringo não só chegou ao estúdio da rádio Veneno, fazendo uma “suruba sonora” de b2b’s com nomes grandes locais como DJ Bassan, D. Silvestre JesMay, MC Drika e o próprio RHR, como também foi até a cidade de Sorocaba se apresentar em uma das maiores festas de funk do país, a Submundo808, dando um exemplo do que é honrar nossas produções culturais locais sem se apropriar delas.

E isso não se limita somente ao artista. O movimento eletrônico chamado “Sul Global” tem crescido exponencialmente no que chamamos de “underground mundial”. O reconhecimento de potências sonoras do eixo do hemisfério sul — que contempla desde sonoridades latinas à africanas — têm tomado o gosto das pistas mundiais. Dentro dos nossos circuitos, que ultrapassam São Paulo, indo de Fortaleza a Recife e a Manaus, padrões rítmicos latinos, timbres de funk e percussões africanas também têm dominado as pistas mais movimentadas do underground nacional.

A quem interessa ignorar esse movimento?

E, novamente, pergunto: a quem interessa ignorar esse movimento? No qual o Brasil, apesar de, julgo eu, ser um importante protagonista, é também apenas mais uma engrenagem de algo muito maior acontecendo na música eletrônica mundial.

Também me pergunto: será que estamos perdendo algum ponto do jogo? Será que falta algum macete, um “X + O + L2” que ainda não aprendemos para atingirmos os lugares econômicos que nos cabem como cena underground (peco aqui por utilizar o singular, mas acho que você entendeu o ponto!?). Ou será que só precisamos dar tempo ao tempo, e que na sua hora o fluxo da vida vai levar nossos artistas e sonoridades ao lugar que merecem. Afinal, na música eletrônica (e na própria realidade do universo), tudo é um pêndulo, tudo é um ciclo, e só precisamos de tempo e perseverança para chegar lá, né? Bom, gosto de me manter otimista e pensar assim, afinal senão qual seria o ponto em continuar tentando?!

No fim, acho que o que nos resta é organização coletiva. Afinal, esse sempre foi o grande ponto característico dos movimentos underground ao redor do mundo. 

Que enquanto ainda não hackearmos o jogo, sejamos capazes de “passar nossas anotações de macetes com as fórmulas X + O + L2”  para quem vem depois, de forma a zerarmos juntos esse jogo que chamamos de mercado musical.

Pois sabemos que o capitalismo não pega leve — e nunca pegou — com gente como a gente. E a fatia do bolo jamais será nossa enquanto os esforços não continuarem sendo cada vez mais coletivos, até que nossa música fale tão alto que aqueles que detêm o capital econômico e cultural não possam mais nos ignorar.

publicidade

Outros conteúdos que você pode curtir: