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M_AI – Música Que Não Toca Por Aí: o laboratório onde a indústria da música ensaia o seu futuro

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Em um momento em que a indústria da música parece falar cada vez mais alto termos como dashboards, métricas, inteligência artificial e se afundar em relatórios intermináveis – o projeto M_AI – Música Que Não Toca Por Aí, criado por Monique Dardenne, faz o movimento oposto: abaixa o volume e fecha a porta da sala.

Longe do barulho das grandes conferências, o M_AI nasce como um clube vivo, intimista e transformador, criado para que a música volte a ser discutida olho no olho, em encontros pequenos, curados, com tempo para a conversa, fricção de ideias e geração de ações concretas.

Um “think tank afetivo” para o ecossistema musical.

Todos os textos que já saíram sobre o M_AI na imprensa especializada concordam em alguns pontos:
– é um clube para cerca de 200 pessoas altamente qualificadas, escolhidas a dedo por Monique;
– o foco é ser um espaço seguro e inteligente de troca P2P, com discussões profundas, e não mais um megaevento de painéis pasteurizados;
– as pautas vão de Tecnologia e ética criativa a Comunidade, território e sustentabilidade financeira.

Mas há um detalhe que ainda não foi explorado em profundidade: o M_AI funciona como uma espécie de “sala de situação” da música brasileira, onde quem toma decisões – artistas, curadores, executivos, produtores, advogadas, programadores, marcas – se permite pensar junto antes de agir.

No encontro realizado no TMS Studio, em São Paulo, com apoio da União Brasileira de Compositores (UBC), tudo o que foi discutido em mesas temáticas está sendo sistematizado em um relatório para virar propostas de ação para o mercado, não apenas memórias de um “evento legal”.  

Em vez de perseguir manchetes, o clube parece perseguir impacto de longo prazo.

Monique Dardenne: de operar o sistema a redesenhar o sistema.

Para entender por que o M_AI soa diferente do resto da agenda da música, é preciso olhar para quem o criou.

Monique Dardenne vem de duas décadas operando o miolo duro da indústria:
– trouxe a Boiler Room para o Brasil em 2013, comandando a operação por três anos, com 14 sessões pelo país e documentário sobre o funk paulista assinado pela Kondzilla;


– atuou como Label Manager na Skol Music / Skol Beats, lançando projetos com Karol Conká, Tropkillaz, Mahmundi, Jaloo, entre outros;


– foi curadora de música do CCSP, um dos equipamentos públicos mais importantes de São Paulo;


– cofundou e dirige há quase uma década o Women’s Music Event (WME) – conferência, prêmio, banco de profissionais e selo IGUAL, que certifica iniciativas com, no mínimo, 50% de mulheres em suas equipes.

Se o WME foi um movimento para incluir e visibilizar mulheres na indústria – criando prêmios, conferências, banco de talentos, selos –, o M_AI é outro passo na mesma trajetória: agora, a ideia é afinar a qualidade da conversa de todo o ecossistema, num espaço menor, com vocação sistêmica.

É como se Monique tivesse passado anos dominando as engrenagens do sistema para, agora, experimentar novos modos de organização – menos centrados em hierarquias formais e mais em curadoria, confiança e responsabilidade coletiva.

Um clube exclusivo – mas desenhado para gerar efeitos públicos.

Hoje, o M_AI é propositalmente restrito: quase 200 profissionais de música, cultura e comunicação, todos convidados pessoalmente por Monique. No futuro, os membros poderão indicar novas pessoas.

À primeira vista, isso soa como exclusão. Mas o desenho é outro:
– o espaço de debate é pequeno o suficiente para gerar intimidade real;
– as discussões são documentadas e organizadas em relatórios, com a intenção explícita de virar estratégias, compromissos e novos modelos de atuação;
– o clube atua como uma espécie de instância de formulação de políticas informais – de ética criativa a modelos de remuneração – cujos efeitos tendem a respingar em toda a cadeia.

Em outras palavras, o M_AI assume que mudanças sistêmicas precisam começar em círculos menores, onde vínculos e responsabilidade são possíveis. A promessa não é democratizar o acesso imediato, mas democratizar os resultados dessas conversas.

Quando cada encontro vira memória coletiva.

Monique descreve o projeto como um “laboratório vivo, com curadoria ativa, encontros pequenos e intensos, conversas profundas, experiências presenciais e conexões que geram impacto real para muito além do networking”.

Na prática, isso significa:

  • os encontros são desenhados como processos criativos, não apenas “rodas de papos”;
  • as trocas são pensadas para gerar memória coletiva, e não só memória individual – o que aparece também na forma de produtos derivados (relatórios, videocast, assinatura sonora, possíveis desdobramentos em outros formatos).

Não à toa, o clube promoveu um camping de produção musical com artistas selecionados, que resultou na assinatura sonora oficial do projeto. O som do M_AI, literalmente, foi criado em comunidade.

É a lógica de um laboratório: o encontro presencial não é o fim; é o início de algo que se desdobra em campo.

Heineken, UBC e a chegada das marcas ao lugar certo da conversa

Outro sinal de que o M_AI está num tipo de “camada estratégica” da indústria é perceber quem está na sala.

Heineken aparece como launch sponsor do clube, investindo em um projeto que não entrega apenas visibilidade, mas posicionamento: estar no começo da conversa, quando se definem agendas, e não só no palco, quando o show já está montado.

UBC (União Brasileira de Compositores) apoia o encontro no TMS Studio, reforçando o caráter de articulação entre criadores, executivos e estruturas de direitos autorais.  

Se o business da música está sendo redesenhado por algoritmos, IA, micro-pagamentos e modelos de assinatura, o M_AI se coloca como um lugar onde marcas e instituições podem ouvir antes de falar – e aprender com quem está no front.

O videocast é uma janela pública desse novo clube

Se o clube é restrito, o videocast “Música Que Não Toca Por Aí” é sua vitrine pública – e também um manifesto de método.

Gravado no bar Matiz, no centro de São Paulo, o programa tem 7 episódios na primeira temporada e um formato simples, mas poderoso:
– Monique recebe artistas e agentes estratégicos da música;
– a conversa é guiada por 5 vinis da coleção pessoal de cada convidado;
– não se fala apenas do que a pessoa faz, mas de quem ela é – histórias de família, viradas de carreira, dúvidas, erros, aprendizados técnicos.

O episódio de estreia traz DJ ANNA, um dos nomes mais importantes da música eletrônica mundial, e mergulha na sua trajetória para além do palco.
O segundo, com L_CIO, flautista e produtor, explora sua infância numa família adventista, sua pesquisa em Capoeira da Angola, a decisão de largar a carreira acadêmica aos 30 anos para viver de música, e os cinco discos que marcam essa travessia – de Jean-Pierre Rampal ao Teto Preto, passando por um remix de “Construção”, de Chico Buarque, que acabou lançado por Gui Boratto e seu selo super prestigiado: Doc Records.

Os episódios seguintes incluem nomes como Eli Iwasa e, em 2026, entrevistas com Eliane Dias (advogada, empresária e esposa do Mano Brown) e Marcelo Beraldo (C3 Presents, Lollapalooza na América do Sul) já estão confirmadas.  

O videocast é, na prática, o espelho público da ética do clube: profundidade, contexto, história, vulnerabilidade – um contraprograma radical à estética do “clipe de 15 segundos” das redes sociais.

Da cena às decisões: quando a indústria vira comunidade estratégica

Talvez o ponto mais interessante do M_AI – e ainda pouco sublinhado – seja o modo como o projeto reconfigura o papel de quem faz música no Brasil.

Nos encontros e no clube, não há separação rígida entre “artista”, “executivo”, “curador”, “marca”, “produtor”. Todos aparecem como agentes da mesma cadeia, responsáveis por decisões que vão desde o tratamento justo de equipes até o desenho de políticas culturais mais amplas.

Ao reunir nomes como Heloisa Aidar (Boa Música), produtores como Felipe Vassão, Branko, Rico Manzano, executivos como Leca Guimarães, Maurício Soares, Melina Couto, Fernanda Paiva, Raína Biriba, e artistas como Otto Papi, Leidi Dai, Siamese, Ina Magdala, Nelson D, Tomás Bertoni, SPVIC, Paulo Tessuto, o M_AI evidencia algo que a indústria costuma esquecer: se todo mundo está no mesmo barco, por que ainda se toma decisão em salas separadas?  

Nesse sentido, o clube não é apenas um ponto de encontro da cena, mas um espaço de responsabilidade compartilhada:
– sobre como remunerar melhor;
– sobre como lidar com IA e autoria;
– sobre como distribuir risco entre artistas e estruturas;
– sobre como tornar a indústria mais diversa sem cair em discurso vazio.

M_AI como continuidade – e desdobramento – do WME

O WME foi um gesto político: criar uma infraestrutura para mulheres na música – visibilidade, prêmios, conexão, oportunidade.  

O M_AI parece ser o segundo capítulo dessa história, em outro formato:
– se o WME amplia o acesso, o M_AI aprofunda a conversa;
– se o WME cria palco, o M_AI cria sala de ensaio de ideias;
– se o WME mostra quem está ficando de fora, o M_AI pergunta como o sistema pode ser redesenhado para não excluir.

Chamar o projeto de Música Que Não Toca Por Aí não é só uma frase de efeito. É um diagnóstico: boa parte das discussões realmente relevantes para o futuro da música – ética da IA, sustentabilidade de carreira, novas relações entre artistas e marcas, impacto de plataformas, revisão de modelos de direitos, reconstrução do papel dos espaços físicos – não toca no rádio, não vira trend, não sobe nos charts, não é pauta fácil de festival.

O M_AI cristaliza essa camada invisível num formato que mistura clube, laboratório, conselho informal, sala de terapia coletiva e think tank.

Se der certo, não vai ser porque fez barulho. Vai ser porque mudou silenciosamente a forma como as decisões passam a ser tomadas na música brasileira – menos solitárias, menos intuitivas, menos guiadas por ego e mais por curadoria, dado, escuta e responsabilidade coletiva.

No fim das contas, talvez o M_AI não seja “mais um projeto de Monique Dardenne”, mas o lugar onde suas duas décadas de trânsito entre artistas, marcas, festivais, executivos e políticas culturais se condensam numa pergunta simples e difícil:

Como a gente quer que a indústria da música se comporte quando ninguém está olhando?

A resposta, ao que tudo indica, não vai tocar por aí tão cedo. Mas, pelas salas onde já começou a tocar, talvez o futuro da música brasileira esteja, pela primeira vez em muito tempo, sendo discutido no tom certo.


Serviço:

M_AI – Música que não toca por aí

Canal do Youtube

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Episódios completos, até a data deste texto:

M_AI, primeiro episódio com DJ Anna

M_AI, Segundo Episódio, com L_cio

M_AI, terceiro episódio com Eli Iwasa

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