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Manual de pista #1 — Antes de querer tocar

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Existe uma ansiedade silenciosa em quem está começando: a de querer tocar logo.
Entrar no line. Ter foto. Ser chamado. Ser visto. Ser lembrado.

Essa ansiedade não nasce do nada. Ela é fruto de um tempo acelerado, de métricas visíveis e da sensação de que, se você não aparece, você não existe. Mas a pista — a pista de verdade — opera em outro ritmo. E é aí que muita gente se perde antes mesmo de começar.

Antes de querer tocar, existe algo mais importante: aprender a ficar.

Ficar na pista.
Ficar escutando.
Ficar observando.
Ficar entendendo o lugar, o momento e a cidade.

Isso não é romantização do “começo difícil”.
É realidade histórica.

No meu caso, por exemplo, o processo foi longo e silencioso. Entre 1991 e 1993, eu era basicamente alguém que gostava muito de música. Escutava, procurava referências, formava ouvido junto aos pioneiros da cidade, André e Pedro. Em 1993 e 1994, comecei a frequentar a cabine dos DJs que eu admirava, ficando ali, observando, escutando, tentando entender como aquilo funcionava na prática. Minhas principais referências naquele período foram Renato Lopes e Mau Mau — era ali, olhando e ouvindo, que o aprendizado acontecia.

Em 1994, fiz meu curso de DJ e passei a me considerar oficialmente alguém que estava começando. Mas isso não significava estar pronto. Muito longe disso. Foram mais quatro anos me entendendo como DJ iniciante, tocando pouco, errando, aprendendo fora do palco e, principalmente, ganhando escuta.

Só em 1998 eu senti, de fato, que algo tinha se consolidado. E isso não veio de uma métrica, de um convite ou de um line específico. Veio de um reconhecimento simples, mas decisivo: naquele ano, tocando junto em Brasília, o próprio Mau Mau virou pra mim e disse algo como “agora eu vejo que você está tocando bem”. Aquilo marcou meu entendimento de tempo.

Ou seja: do primeiro contato mais consciente com a música, em 1991, até me considerar realmente preparado para tocar, em 1998, foram cerca de sete anos de formação. O tempo histórico hoje é outro — provavelmente mais curto, mais acessível, mais acelerado. Mas o princípio continua o mesmo: carreira é processo. E processo leva tempo.

Escutar música, mixar e ler a pista não são a mesma coisa

Aprender a escutar música, aprender a mixar e aprender a escutar a pista não são a mesma coisa. São processos independentes, que se cruzam, mas que não acontecem ao mesmo tempo — e isso é algo que muita gente confunde no começo.

Eu sempre fui alguém viciado em escutar música. Antes mesmo da música eletrônica, eu já passava horas com fone de ouvido, ouvindo estilos diferentes, tentando entender o que cada música me passava. Quando a música eletrônica entrou na minha vida, isso se intensificou: eram muitos lançamentos, muita coisa nova, muita vontade de ouvir tudo.

Esse tempo de escuta solitária foi fundamental. Escutar música no fone, faixa por faixa, entender diferenças de estilo, timbre, construção, tensão, silêncio. Perceber o que uma música comunica sozinha — antes mesmo de pensar em pista. Esse é um aprendizado profundo, silencioso, que ninguém vê, mas que constrói repertório interno.

Ao mesmo tempo, existe outro aprendizado que não acontece no quarto, nem no fone: o aprendizado de pista. Ir para a festa, escutar DJs tocando, ficar perto da cabine, observar o que acontece. Ver como a música se comporta no corpo das pessoas. Entender o que cresce, o que cai, o que sustenta, o que dispersa.

Nesse processo, a observação é tudo. Não no sentido de julgar, mas de analisar internamente. Pensar: “aqui eu faria diferente”, “isso funcionou”, “isso talvez não”. Eu sempre tive DJs que admirava muito, mas que também me provocavam esse pensamento: eu gosto muito do que esse cara faz, mas quero conseguir fazer melhor. Essa ambição interna — saudável — me ajudou a entender quem eu era e o que eu buscava como DJ.

Com o tempo, outra coisa fica clara: nem toda música que funciona no fone funciona na pista. Muitas faixas enganam. No quarto parecem incríveis, mas no som grande não se sustentam. Outras, na primeira escuta, soam estranhas, difíceis, pouco óbvias — e só depois de um tempo revelam seu verdadeiro potencial.

Eu vivi isso muitas vezes. Teve situações em que discos chegavam e vários DJs escutavam juntos. Alguém dizia “não gostei muito desse”, outro também não se empolgava. Eu pegava e falava: “então troca comigo, me vende esse”. Levava o disco. Depois, quando tocava na pista, esses mesmos DJs vinham perguntar: “que música é essa?”. E eu respondia: “é aquela que eu comprei de você”.

Isso aconteceu inúmeras vezes.

Errar na pista também é aprendizado

Existe ainda uma diferença fundamental que só o tempo ensina: o que uma música parece no fone não é o que ela se torna num sistema de som grande. Algumas faixas crescem de um jeito que você não imagina. Outras, que pareciam certeiras na primeira escuta, simplesmente não funcionam.

Errar na pista faz parte do aprendizado real. Tocar algo achando que vai funcionar e perceber que não funcionou. Sentir a energia cair. Ter que reagir, recuperar, reconstruir. Isso ensina mais do que qualquer acerto automático.

Mas hoje existe um agravante: o tempo encurtou.

Antigamente, um DJ podia tocar três ou quatro horas. Havia espaço para testar, errar e corrigir. Hoje, quando o set é grande, ele tem uma hora e meia — muitas vezes apenas uma hora. Isso muda tudo.

Quando o tempo é curto, a qualidade precisa ser maior.

Montar um set de uma hora ou uma hora e meia com começo, meio e fim é muito difícil. Exige leitura de horário, de contexto e de energia. Uma hora e meia no começo da noite pede uma sensação. No meio, outra. No fim, outra completamente diferente. Achar que a mesma sensação funciona em qualquer horário quase nunca dá certo.

Por isso, o tempo fora da cabine se tornou ainda mais importante. É fora dela que você constrói estrutura para quando entrar, entrar preparado.

Tecnologia facilitou o acesso, não o processo

Houve um tempo em que comprar um disco significava pagar em dólar. Quinze dólares era o mais barato. Você importava, pagava taxa e esperava chegar. Errar na escolha era dinheiro queimado.

Isso criava responsabilidade. Para diminuir o risco, era preciso se informar mais. Conhecer selos, artistas, cenas. Ler listas de lançamentos. Mesmo assim, não havia garantia. Um artista bom podia lançar algo que não funcionava.

Esse contexto criava um filtro natural. Não tornava ninguém melhor automaticamente, mas exigia critério.

Hoje, a música se democratizou. Qualquer pessoa pode produzir e lançar da própria casa. Isso é uma conquista real. Mas também colocou o DJ diante de um novo desafio: o excesso.

Nunca houve tanta música disponível. E justamente por isso, o poder de seleção se tornou ainda mais importante.

Se antes o valor estava em ter informação, hoje o valor está em saber onde está a informação boa. Onde procurar com critério. Quais selos mantêm coerência. Quais artistas dialogam entre si.

A facilidade não elimina o processo. Ela o desloca.

Subidas, descidas e permanência

Em mais de 30 anos como DJ, eu vivi muitos momentos de frustração. Vontade de desistir também. Isso faz parte.

Ao longo desse tempo, passei por várias fases: techno, house, techno mais pancada. Essas fases sempre dialogaram com o momento do mundo. Momentos mais tranquilos pediam músicas mais abertas. Momentos mais tensos pediam sons mais duros.

Nesse percurso, as subidas e descidas foram muitas. Em 1997, fui considerado um dos destaques do Brasil. Em 1998, eu estava tocando em Goiânia, em São Paulo, em Belo Horizonte . Depois disso, vieram quedas. Entre 2002 e 2004, minha carreira praticamente parou. Em 2004, voltou a andar. Fiz projetos que deram certo. Outros que não deram em nada.

Até chegar à Trema — o maior projeto pessoal que já realizei como DJ e produtor — foram mais de 30 anos de trajetória.

No fim, ficam aqueles que permanecem. E quem permanece geralmente permanece por dois motivos: ou porque tem qualidade, ou porque tem vontade. O tempo cobra.

Para fechar

Eu sempre acreditei em Brasília. Na pista de Brasília. Nos artistas de Brasília. No potencial que essa cidade tem.

Hoje, mais do que nunca, acho que é o momento de organizar. Conectar pessoas, entender contextos, criar condições para que mais gente consiga permanecer. Porque a quantidade de talentos que a cidade já perdeu por falta de suporte, leitura e tempo é grande.

Se a gente quer uma cidade culturalmente viva, precisa criar condições para que artistas vivam de arte, para que eventos se sustentem, para que os territórios sejam ocupados e para que a cidade seja vivida de verdade.

Nada disso se constrói sozinho.

Esse texto não é sobre chegar rápido.
É sobre conseguir ficar tempo suficiente para fazer sentido.




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