O Drum and Bass não acabou. Ele mudou de mãos

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Entre ciclos, gerações e sotaques locais, o DnB brasileiro vive um dos seus momentos mais férteis — longe do hype, perto da invenção

 Há um erro recorrente na forma como lemos a cultura: confundir silêncio com fim. Quando algo deixa de orbitar nossos feeds ou círculos imediatos, decretamos seu encerramento. O Drum and Bass no Brasil é um bom exemplo disso. Longe de ter desaparecido, o gênero atravessa hoje uma fase de intensa criatividade, marcada pela valorização de produtores nacionais, pela contaminação com estéticas locais e por uma nova geração que não pede licença para reinventar o formato.

O que aconteceu

Depois da inventividade dos anos 1990 e da consolidação nos anos 2000, o Drum and Bass passou por um esfriamento perceptível ao longo da década de 2010. Menos espaço em grandes clubes, menos atenção da mídia especializada, menos circulação fora dos nichos. Mas como todo movimento de pulsação forte, ele não se encerrou — apenas se reorganizou.

O que vemos agora é um ressurgimento impulsionado por produtores, DJs e selos independentes que tratam o DnB não como peça de museu, mas como linguagem viva. Misturas com ritmos nacionais, flertes com UK Garage, footwork, funk, jazz e soul passaram a ser não exceção, mas método.

Esse novo momento também é marcado por uma relação mais orgânica com a internet: curadoria, vídeo, lives, circulação internacional e construção de comunidade. Não se trata de revival, mas de atualização estética e política do gênero.

Contexto urbano e cultural

Dentro desse cenário, alguns nomes do underground brasileiro ajudam a entender o momento atual do Drum and Bass.

Syú, de Suzano (SP), é um desses pontos de convergência entre gerações. Sua trajetória passa por referências diversas — do K-Pop ao techno, do footwork ao jazz — e se traduz numa discografia que vai do minimalismo ao impacto mais agressivo. Ao mesmo tempo em que dialoga com nomes consolidados como Alibi, Deekapz e Eram, constrói uma identidade própria, presente em festas como SPEEDTEST, Forbass & Tendence, com residência na Veneno.Live e sets que já o colocaram lado a lado com DJ Marky. É curadoria e produção caminhando juntas.

Syú

De Brasília, Quest representa uma abordagem mais atmosférica e sensível do gênero. Com forte presença na cena eletrônica da capital, seus lançamentos pela SPEEDTEST flertam com o Liquid Drum and Bass e o UK Garage, sem medo de atravessar a música brasileira — como no remix de Lágrimas Negras, de Gal Costa. O projeto audiovisual Lost Box reforça essa pesquisa: sets gravados fora do óbvio, com cuidado estético e escuta atenta do território.

Também de Brasília, J4k3 carrega a versatilidade como assinatura. Conhecida por sua atuação central na cena de funk underground do DF, ela mostrou domínio absoluto do Drum and Bass em apresentações que rapidamente circularam nas redes e chamaram atenção de selos e curadores. Da Furacão 3K às edições da Externa, seus sets reafirmam algo importante: o DnB também é corpo, pista e urgência.

Dizrupt aponta para um caminho mais técnico e internacionalizado. Seu som — que mistura tech, deep e jump up com alto nível de sound design — lhe rendeu lançamentos por selos estrangeiros como Dispatch Recordings, Flexout Audio e o EP Antidote pela NYX Recordings. É um nome que sintetiza a nova geração brasileira com ambição global, sem abrir mão de identidade.

Fechando o recorte, Ren, de Curitiba (PR), constrói seus sets a partir de ampla pesquisa: neurofunk, liquid, techstep e outras vertentes coexistem em uma curadoria sólida. Iniciada em lives na Twitch, sua trajetória rapidamente alcançou pistas importantes como a Forbass & Tendence, dividindo line com nomes como L-Side e DJ Patife. Um exemplo claro de como a formação digital não exclui, mas potencializa a presença física.

Por que isso importa

O Drum and Bass brasileiro vive hoje um momento que diz muito sobre a cultura urbana contemporânea: descentralizada, híbrida, menos dependente de validação externa e mais comprometida com experimentação. O gênero segue existindo porque soube mudar de mãos — e, principalmente, de escuta.

Ignorar esse movimento é perder de vista como as cenas se reinventam longe do centro, do hype e das narrativas prontas. O DnB não acabou. Ele apenas parou de pedir permissão.

Contatos do instagram:

@heyquest – quest
@jakeceiii – jake
@ren.garnish – ren
@dizrupt.dnb – dizrupt
@soundsbysyu – syu


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