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O problema nunca foi o BPM. Sempre foi o poder.

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 Foi — e continua sendo — o poder

As acusações recentes de abuso sexual que aconteceram na cena eletrônica não reabriram uma discussão sobre velocidade, estética ou pureza de subgênero. Reabriram algo mais incômodo. Antigo. Estrutural.

O que acontece quando idolatria e poder dividem o mesmo camarim?

Não é a primeira vez. E provavelmente não é coincidência que os casos mais graves quase sempre orbitem nomes consolidados — artistas com agenda lotada, cachês inflados, reputação construída ao longo de anos. Isso não transforma sucesso em culpa automática. Mas expõe uma lógica: poder concentrado cria zonas de silêncio. E silêncio é confortável para quem está no topo.

A pergunta que move a pista é simples e dura:
a indústria confronta quem é indispensável — ou só quem é substituível?

Os números mostram que não é exceção

Pesquisas internacionais indicam que quase metade dos profissionais da música já enfrentaram algum tipo de assédio no ambiente de trabalho — e a maioria nunca denunciou.

Entre mulheres que atuam na indústria, os índices são ainda mais altos.

O problema não está restrito ao palco.
Está nos bastidores, produção, gestão e relações contratuais.

Quando quase ninguém denuncia, não é porque quase nada acontece.
É porque o sistema não oferece segurança para quem fala.

Contratos informais, relações baseadas em networking e a dependência de reputação criam ambientes onde denunciar pode significar perder espaço.

Isso não é episódio.
É estrutura.

A cultura nasceu como refúgio

A cultura eletrônica nasceu muito antes de virar planilha. Nasceu como abrigo. Em espaços negros, latinos, queer. Em porões onde a pista era proteção antes de ser vitrine. Ali, underground nunca foi sobre timbre. Era sobre convivência. Sobre criar um lugar possível quando o lado de fora era hostil.

Quando essa cultura vira mercado absoluto, algo se desloca. A pista deixa de ser território e vira produto. A celebridade substitui a comunidade. E, nesse movimento, a memória encurta.

Quando a memória é curta, os erros se repetem

House já viveu isso.
Techno também.
Cenas consideradas progressistas não foram imunes de abusadores.

Houve momentos em que o mercado falou mais alto que a ética. Houve respostas tímidas. Houve silêncio estratégico.

Talvez o desconforto maior esteja aí: se as estruturas tivessem sido mais firmes antes, quantas histórias teriam sido evitadas?

Underground não é estética. É postura.

Não é tocar mais rápido.
Não é soar mais pesado.
Não é discursar contra o mainstream enquanto se reproduz a mesma lógica de concentração de poder.

É proteger quem sempre esteve vulnerável.
É não relativizar comportamento nocivo porque a pista está cheia.
É entender que coerência não é detalhe — é fundamento.

Eventos que se reivindicam underground precisam sustentar isso fora do flyer. Na curadoria. Na produção. Na forma como lidam com denúncias. No tipo de ambiente que escolhem construir.

E há algo que ainda incomoda parte da indústria: redistribuir centralidade.

Diversidade não é estética de line-up. É estrutura de decisão. Quando mulheres, pessoas trans e outras identidades ocupam posições reais de poder — direção artística, produção, organização — o ambiente muda. Não por virtude abstrata, mas porque monopólios simbólicos perdem força.

Espaços plurais são menos blindados pelo silêncio.

No fim, não se trata de cancelar um estilo ou defender outro. Trata-se de reconhecer que reputação não pode funcionar como escudo. Que poder precisa de fiscalização. Que a pista, se é espaço de transformação, precisa suportar ser transformada.

A história já mostrou caminhos diferentes

Ao longo das últimas décadas, a cultura eletrônica já enfrentou acusações graves envolvendo nomes centrais de diferentes vertentes.

Em alguns momentos, a cena seguiu como se nada tivesse acontecido.
Em outros, as consequências foram profundas.

Hoje, mais uma vez, a cultura se vê diante da mesma encruzilhada.

A diferença é que agora existe mais informação.
Mais debate.
Mais consciência.

E quando a consciência aumenta, a omissão pesa mais.

A pergunta deixa de ser “isso é novo?”
E passa a ser:

Vamos repetir o ciclo ou finalmente alterar a estrutura?

Porque essa história nunca foi sobre idolatria.
Foi sobre comunidade.

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