Há muito venho me perguntando: “O que faz uma identidade sonora”? Tipo, quais seus elementos? O que faz algo soar como soa, despertar o que desperta, de forma única e singular?
Nesse texto quero me debruçar um pouco em cima disso e brisar um pouco, principalmente com você, interlocutor que despendeu o tempo pra vir aqui. No entanto, já gostaria de destacar que tudo aqui escrito representa uma perspectiva minha sobre como eu enxergo a música, a cultura e o ofício de DJ. Nada é escrito em pedra e precisa fazer sentido para todos. Que toque a quem tocar.

Bom, antes de tudo, gostaria de dar um passo pra trás. Queria que a gente pensasse sobre o “soar”. Dentro da antropologia é muito comum a gente lançar luz sobre pequenos termos, conceitos, ações e lógicas de mundo, e, a partir dessa luz, cavar até o fundo dos seus significados através de mais e mais perguntas. Aqui, o que importa não é a resposta, mas a pergunta e o que a pergunta pode despertar.
“Soar”: quando dizemos algo como “soa parecido”, “soa igual a”, automaticamente retornamos ao nosso arcabouço mnemônico (de memória) e damos significado ao “objeto-que-soa” a partir de um lugar comum que já conhecemos, do que já vivemos. “Soar como” é sobre referência. Essas referências podem ser desde uma sensação que aquele tipo de som, de música ou de timbre desperta até uma semelhança estética com algo que você já ouviu antes. Mas, no geral, quando algo “soa como”, é sobre memória que falamos.
E acho muito curioso a gente pensar nessa dimensão do “soar”, porque é muito comum associarmos a certas imagens, diferentes tipos de sons, de artistas e festas. Por exemplo, eu sou parte da comunidade queer do underground eletrônico brasileiro, e é muito comum entre nós identificarmos o que é um “som de hétero” ou até outro jargão muito comum entre nós que é falar do tal “house trans”, ou “house de negra”. Acho que qualquer pessoa cis-hétero média olharia pra isso e pensaria: “nossa, que palhaçada, música é música, não existe isso, vocês estão segregando”. Mas aí, meus caros, é que eu acho que entra o olhar antropológico e a importância de lançar luz para um conceito tão banal quanto o “soar”, principalmente se queremos aqui desenvolver uma brisa sobre identidade sonora.

De fato, não há nada de natural na física sonora de uma música considerada como “house trans” ou em um DJ set que soa hétero que faça com que esse tipo de som seja classificado como tal. Os sinais digitais que compõem as formas de onda, os samples e as estruturas de cada música não possuem um caráter nato, já associado a significados concretos. Entretanto, uma vez vi em um conteúdo pelos confins da internet: “o que diferencia um barulho qualquer de música é que música é relação”, e aí que tá o pulo do gato, querido clubber leitor. Música é relação.
Dentro da própria antropologia, quando a gente pensa em cultura humana, a gente costuma dizer: “não existe nada fora das relações”. E na música isso não podia ser diferente: tudo é relação. Um termo musical sozinho não faz sentido SÓ (sozinho), ele somente É em relação aos outros termos. Até quando a gente fala de uma nota musical, que somente é, também pela relação com seus harmônicos.
Mas tá, Gabuxo, o que isso tem a ver com o tal do “soar trans” e “soar hétero”?
Relação.
Essa significação a partir da relação não é exclusiva dos elementos físicos que compõem o som. A nossa relação enquanto seres humanos, como cultura e subcultura, está intrinsecamente ligada com o som, com a música. E o conteúdo dessa relação é que vai dar forma à concepção de música em quaisquer que seja seu contexto cultural.

“Soar”, nesse sentido, não é uma dimensão que dá conta somente dos significados físicos do som (suas frequências, harmônicos, volumes e timbres), mas é principalmente uma dimensão que fala dos referenciais culturais que experienciamos tanto individualmente quanto coletivamente em relação ao som.
Soar trans, soar underground, soar assim ou assado diz, sobretudo, sobre as associações conscientes e inconscientes que fazemos do que estamos ouvindo com o que já ouvimos e vivemos. É uma grande suruba sensorial na nossa mente. Oras, mas é claro que existe um house trans: anos e anos de festas, de movimentações, de construções sonoras que perpassam as vivências e o tato de pessoas trans e queer. Você acha mesmo que não existe um “soar” que é nosso? Aquele tipo de timbragem, de construção e estruturas musicais que, coletivamente, como LGBTs, temos a tendência de preferir, de selecionar e expressar a partir do nosso tato musical e cultural?! E que só são assim porque compartilhamos uma série de referências e experiências coletivas semelhantes, que se repetem ao longo dos espaços e do tempo, que criam memória e que criam associação em nossos cérebros e grupos.
E é a partir disso que creio estar o caminho para entender como se constrói uma identidade sonora. O que faz uma identidade não é somente sua diferenciação do meio, mas como ela se relaciona com o meio.
Para ilustrar, gosto de pensar em três arquétipos de artista:
¹ Os que são avant-garde, à frente do tempo, que são referências e trazem o novo, capazes de reconfigurar tudo que conhecemos sobre música.
² Os que só repetem fórmulas, que surfam no hype e não trazem nada de novo. Particularmente, considero que é o que ocorre nas camadas mais capitalizadas da indústria musical, where everything is about money.
³ E tem os que não necessariamente estão à frente do tempo, nem repetem fórmulas, mas que sabem relacionar o movimento sonoro vigente com sua visão artística única, relacionando o hype com o que é particular e visceral de si. Que, mesmo na moda, soa novo.

Nesses três tipos, o que vai definir o lugar da identidade sonora de cada artista é justamente a forma com que as relações acontecem, seja estando totalmente além do que está em alta, seja estando totalmente imerso e reproduzindo o que está em alta, ou subvertendo e criando novas perspectivas sobre as estéticas sonoras em alta.
Ao dominar a relação, você domina o que é seu. Afinal, tudo é relação. Por exemplo, um DJ X pode pegar dois subgêneros quaisquer de house e de techno — que individualmente são “só mais um comum” — e, ao misturá-los (algo que talvez poucos ou ninguém tenham feito na sua cena), evocar uma relação nova, evocar uma nova forma de soar. O valor atribuído ao “soar”, claro, irá depender dos referenciais de cada ouvido, individual ou coletivo. Na cena do DJ X, isso pode ser totalmente novo, afinal, em relação aos movimentos sonoros ali vigentes, essa mistura é nova, portanto a mistura em questão poderá soar avant-gard naquele contexto.
Por outro lado, na cena do DJ Y, essa mistura já é o comum que está em alta, e esse som só vai soar como mais uma repetição do que já está em movimento alí. E, se ilustrei meus exemplos bem, a chave da busca consciente de uma identidade está aí: ser capaz de enxergar esses movimentos, essas nuances que perpassam desde a dimensão mais individual do soar até a sua mais coletiva, e se apropriar delas para si. Saber exatamente onde sua estética sonora se localiza em um oceano de sons.
O artista do tipo ³ vai fazer isso. Pode não ter nada de novo no gênero que ele toca “ah, é só um techno”, “ah, é só um breakbeat”, mas o poder de transformar esse techno e esse breakbeat em algo próprio, vai da capacidade que essa pessoa tem de manipular as relações ali em jogo. E gostaria de destacar algo nessa parte: as relações são múltiplas, arriscaria dizer inclusive quase infinitas, pois cada perspectiva sobre a realidade (e, nesse caso, sobre a música) é única, e algumas quase inconcebíveis para outras mentes. Durante sua curadoria musical, ao selecionar o que vale a pena ou não colocar no seu pendrive, você irá basicamente sistematizar uma rede de relações na qual você é o centro, e os termos a serem destacados são muitos. Termos que podem ser desde ambientações presentes nas tracks, elementos percussivos, tipos de sintetizadores; os próprios gêneros podem ser um termo em si, ou padrões rítmicos diferentes. As opções são muitas, e sua percepção sonora que vai ditar quais elementos irão se destacar e se repetir ao longo das tracks da sua biblioteca, criando seu corpo único. Sua identidade perpassa primeiramente por aquilo que te toca, que te faz vibrar.
“Okay, Gabuxo, você deu algumas voltas conceituais, mas, na prática, o que exatamente tudo isso quer dizer?”
Bom, vou utilizar, a partir da minha própria experiência, que creio ser mais fácil de ilustrar.
Por muito tempo eu fiquei em dúvida do que era minha identidade: gêneros? Já passei por muitos. Quando eu pensava na relação com o contexto cultural, via que as tracks que eu selecionava não tinham um corpo formado que eu poderia falar: “essa é a minha cara”. Mas, durante o tempo, enquanto navegava nas águas de outros gêneros, fui percebendo que tinham certas características que me faziam vibrar de uma forma muito específica, e que isso atravessava quaisquer que fossem os gêneros musicais.

Então fui tomando consciência sobre esse gosto, essa paixão, fui também tomando conhecimento pelas palavras das coisas (os nomes dos termos, por assim dizer) e, assim, consegui materializar na minha mente, e na minha pesquisa, exatamente o que eu queria.
Com o tempo, percebi que aquilo que me fazia vibrar, mais especificamente “fazer careta” (kkkk), eram as texturas. Depois das texturas, os grooves. Mas não qualquer groove: um groove torto, sincopado, um groove que, na minha cabeça, eu associava ao feminino, à sensualidade. Depois tomei consciência sobre timbragens, que o que eu queria eram timbres que me remetesse ao futuro, ao moderno. E, por fim, tomei consciência da energia das músicas, que o que era central para mim era a hipnose, mas não qualquer hipnose, uma que fosse intensa e despertasse o corpo.
Tá vendo cada uma dessas palavras em negrito? Cada uma é um termo que >EU< enxergo como presente nas músicas, mas só eles não esgotam a possibilidade de mil outros termos que posso vir a identificar, a sentir. E, se eu jogar essa perspectiva pra você, as possibilidades são ainda mais infinitas, pois a sua forma de sentir a música e nomear cada um desses sentires é sua. E é aí que está o terreno de onde a identidade sonora brota: seremos capazes de dar forma à nossa identidade sonora ao tomarmos consciência desses termos, sejam eles técnicos ou abstratos (aquilo que a gente sente), e ao dominar como e onde, na nossa curadoria musical, queremos que eles apareçam. Ao utilizar esses termos como filtros pessoais de nossas pesquisas e, repetidas vezes, conscientemente sintetizarmos e integrarmos eles em nossas bibliotecas musicais, com o tempo criaremos uma imagem sonora que reflete exatamente o que há de mais visceral na nossa visão como artistas.
É como uma linguagem: cada palavra é um termo, e cada termo, junto a outro, cria uma frase, e, na repetição, essas frases se tornam mensagens. No discurso sonoro é que a imagem da identidade se forma, e o que antes eram só termos isolados de um quebra-cabeça, ao serem manipulados de forma única, a partir de filtros únicos, criam uma paisagem sonora original e sua, que exprime o que há de mais fundamental no seu tato como artista e curador.
Acho que enxergar isso é um ponto chave para não cairmos no vazio dos efeitos-manada dos hypes sonoros que nossas cenas enfrentam a cada ciclo. Não há nada de errado em gostarmos, e repetirmos o que está na moda. Seja hardtechno, afrohouse, latincore ou bass music. Viver em sociedade, afinal, é isso, sermos arrastados pelas águas das tendências de tempos em tempos. Mas durante esses fluxos é essencial sabermos onde nossa identidade se enraíza, e as direções desses fluxos. Desse modo, vamos ser capazes de emergir nossas identidades de forma múltipla e verdadeira. Sem deixar nossas individualidades serem afogadas pelo grande volume ao nosso redor.
Por fim, acho que o que tenho a dizer pra você é: se jogue e analise. Seja lançando olhar a elementos percussivos específicos, à vibes que só você sente, a melodias ou padrões rítmicos quaisquer, a visão sobre os termos musicais é sua. Se jogue no que te faz vibrar, tome consciência do que cada um desses elementos representa pra você e pro seu entorno e domine a relação entre eles. Entenda também como você, enquanto artista, se relaciona com o que está acontecendo sonoramente no seu contexto cultural.
Ao tomar consciência disso tudo, o terreno para uma identidade sua, que mostre o que você quer, e quem você é, estará fértil.
Por: Gabriel Chaves a.k.a DJ Gabuxo




