Sinais de um novo ciclo

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Faz algum tempo que uma sensação vem aparecendo em conversas, pistas de dança, grupos de produtores e encontros entre artistas da cidade.

A impressão de que alguma coisa está mudando.

Não de uma hora para outra.

Nem por causa de um único evento.

Mas através de uma sequência de movimentos que vêm se acumulando há pelo menos dois ou três anos.

Novos coletivos.

Novas ocupações.

Projetos amadurecendo.

Artistas circulando para além do Distrito Federal.

Mais gente produzindo.

Mais gente se organizando.

Mais gente apostando que vale a pena construir aqui.

Nenhum desses fatos, isoladamente, significa muita coisa.

Mas quando todos começam a acontecer ao mesmo tempo, vale prestar atenção.

Talvez ainda seja cedo para dar um nome a isso.

Mas talvez também seja tarde demais para fingir que nada está acontecendo.

Estamos diante de um novo ciclo.

Não porque Brasília tenha sido descoberta agora.

Nem porque a cidade precise ser reinventada.

A música eletrônica de Brasília existe há décadas. Ela atravessou gerações, ocupou espaços improváveis, formou artistas, criou comunidades e desenvolveu uma identidade própria muitas vezes sem depender da validação de centros culturais maiores.

Quem vive essa história sabe disso.

Sabe que a cidade continuou produzindo cultura mesmo nos períodos em que parecia invisível para quem olhava de fora.

Sabe que muita coisa foi construída sem grandes estruturas, sem grandes recursos e, muitas vezes, sem grande reconhecimento.

Mas existem momentos em que diferentes movimentos passam a apontar na mesma direção.

E este parece ser um deles.

Nos últimos anos, a cidade viu novas gerações assumirem protagonismo.

Viu projetos independentes crescerem.

Viu artistas ampliarem sua circulação.

Viu novos públicos surgirem.

Viu espaços culturais serem ocupados de maneiras diferentes.

Viu mais gente interessada não apenas em participar da cena, mas em construí-la.

Talvez o mais importante seja justamente isso.

A mudança não parece estar acontecendo em um único lugar.

Ela parece estar acontecendo em vários ao mesmo tempo.


A questão é que crescimento, por si só, não garante nada.

A história da cultura está cheia de cenas que pareciam promissoras, viveram períodos intensos de atividade e, alguns anos depois, perceberam que haviam construído eventos, mas não necessariamente estruturas.

Porque nenhuma cena cultural se desenvolve apenas por causa de bons artistas.

Ou de boas festas.

Ou de bons produtores.

Ela cresce quando diferentes partes conseguem enxergar que fazem parte de algo maior.

Artistas.

Coletivos.

Produtores.

Comunidades.

Espaços culturais.

Comunicadores.

Público.

Todos ocupam posições diferentes dentro da mesma engrenagem.

Durante muito tempo, o desafio da música eletrônica em Brasília foi resistir.

Encontrar espaços.

Manter projetos vivos.

Formar público.

Sobreviver aos ciclos naturais de crescimento e retração que toda cena cultural atravessa.

Talvez o desafio dos próximos anos seja outro.

Talvez seja aprender a construir.

Construir caminhos que permaneçam quando o entusiasmo inicial passar.

Construir memória.

Construir oportunidades.

Construir pontes.

Construir estruturas capazes de sustentar aquilo que está sendo criado agora.


E isso exige uma conversa que vai além dos interesses individuais de cada projeto.

Brasília precisa formar mais público?

Criar mais espaços permanentes?

Fortalecer a circulação de artistas locais?

Preservar melhor sua própria memória?

Ampliar sua representação quando as decisões sobre cultura, cidade e economia criativa são tomadas?

Criar formas de articulação entre diferentes agentes culturais?

Pensar estratégias coletivas para o desenvolvimento da cena?

A resposta provavelmente é sim para várias dessas perguntas.

Mas talvez o mais importante não seja encontrar respostas imediatas.

Talvez seja reconhecer que essas perguntas existem.

Porque existe uma diferença entre crescimento e desenvolvimento.

Uma cena pode crescer sem necessariamente se fortalecer.

Pode produzir mais eventos sem ampliar sua influência.

Pode movimentar mais pessoas sem construir legado.

Por isso, talvez este seja um momento importante para refletir sobre objetivos comuns.

Não objetivos que eliminem diferenças.

Mas objetivos que permitam que diferentes setores caminhem na mesma direção quando isso fizer sentido.


Isso não significa concordar em tudo.

Nem eliminar divergências.

Nem transformar a cena em um bloco único.

A diversidade sempre foi uma das maiores forças da música eletrônica.

Techno, house, trance, bass, disco, experimental.

Cada núcleo possui sua própria história.

Sua própria comunidade.

Suas próprias referências.

E isso é saudável.

O problema nunca foi a diversidade.

O problema é a fragmentação.

Porque existe uma diferença importante entre ocupar territórios diferentes e acreditar que não existe território em comum.

Uma cena forte não é aquela onde todos pensam igual.

É aquela onde diferentes grupos conseguem reconhecer que existem interesses coletivos que beneficiam a todos.

A valorização da cultura.

A ocupação qualificada da cidade.

A formação de novos públicos.

O fortalecimento de artistas locais.

O reconhecimento da música eletrônica como parte legítima da produção cultural do Distrito Federal.

A criação de políticas públicas que entendam a cultura noturna como cultura.

A construção de espaços de diálogo capazes de aproximar diferentes partes da cadeia produtiva.


Talvez o sinal mais importante de um novo ciclo não seja o número de festas acontecendo.

Nem a quantidade de artistas surgindo.

Nem o crescimento de um ou outro projeto.

Talvez o sinal mais importante seja a possibilidade de diferentes partes da cena perceberem que existe algo maior do que seus próprios projetos.

Uma oportunidade.

Uma janela histórica.

Uma chance de construir coletivamente aquilo que, durante muito tempo, parecia distante.

O futuro da música eletrônica em Brasília não será construído por um único coletivo.

Por uma única festa.

Por uma única geração.

Mas pode ser construído por todos eles juntos.

E se realmente estamos diante de um novo ciclo, talvez a pergunta mais importante não seja o que cada um pretende construir.

Talvez seja o que queremos que exista quando olharmos para trás daqui a cinco ou dez anos.

Este parece um bom momento para começar essa conversa.

Tuntistun — onde a noite encontra memória.

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