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A universidade que sempre teve pista

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Em 1995, o subsolo da FAU virou festa.

Não havia club. Não havia casa noturna. Havia um subsolo universitário e uma geração que precisava de espaço para um som que a cidade ainda não sabia onde colocar. A primeira festa ali foi um ato de invenção — estudantes, DJs jovens, pessoas que entenderam que se o lugar não existia, seria necessário criá-lo.

Isso aconteceu dentro de uma universidade pública. Não apesar dela — por causa dela.


O que a universidade sempre soube

A UnB nunca foi só currículo.

Desde a fundação, a universidade entendeu — nem sempre de forma consciente, nem sempre de forma linear — que cultura não se faz só em sala de aula. Os centros acadêmicos, os diretórios, as noites que começavam no campus e terminavam pela madrugada: a vida universitária sempre transbordou o horário das aulas.

Mas quando a música eletrônica chegou, não encontrou terreno preparado.

Brasília era a capital do rock. A música eletrônica era estranha, sem rosto, sem estrela para celebrar. Houve vaias. Houve latas de cerveja. Houve DJs tocando para uma pista que não entendia — ou não queria entender — o que estava ouvindo.

O subsolo da FAU foi apenas o lugar onde isso ficou visível pela primeira vez. A resistência também.


De 1995 a 1997

Em 1995, o subsolo da FAU abrigou as primeiras festas. Escala pequena, resistência grande. A festa ali foi ocupação — estudantes e DJs jovens tomando um lugar que a universidade não havia planejado para esse fim.

Dois anos depois, a mesma energia havia crescido o suficiente para tomar o minhocão — o ICC, o maior edifício do campus. A festa Réptiles instalou répteis gigantes na fachada, dragões suspensos no campus, painéis de figuras rupestres cobrindo a arquitetura brutalista.

Não foi decoração. Foi uma geração usando a universidade como matéria-prima.

De 1995 a 1997, a cena foi do subsolo para a fachada. Ninguém planejou isso. Aconteceu porque o território permitia — e porque havia gente disposta a ocupá-lo.


O que está sendo perdido lá fora

Enquanto isso acontecia em Brasília, o mundo caminhava na direção oposta.

Berlim — cidade que transformou a música eletrônica em patrimônio cultural imaterial da UNESCO — viu o Watergate fechar depois de 22 anos. O Wild Renate encerrou em 2025. O Berghain chegou perto. Batizaram o fenômeno de Clubsterben: a morte dos clubes. Especulação imobiliária, licenças cada vez mais difíceis, empreendimentos residenciais construídos exatamente onde os clubes já existiam.

Na França, em abril de 2026, a Assembleia Nacional aprovou uma lei que criminaliza a organização de free parties. Seis meses de prisão para organizadores. Multa para quem simplesmente participar. Pela primeira vez em um país democrático ocidental, comparecer a uma festa se tornou ato potencialmente criminoso.

Não é só econômico. É uma escolha sobre que tipo de vida urbana é tolerada. Que experiência coletiva tem direito de existir. Que corpos podem ocupar o espaço público à noite.


A universidade como posição

Não é a universidade que abre espaço para a pista. São os estudantes que arrancam esse espaço — com luta, com organização, com a clareza de quem sabe que esse território não se entrega por vontade própria.

E o que está em jogo vai além da festa.

O HH dentro da universidade é um dos poucos espaços de cultura noturna acessíveis para quem entrou pelas cotas, para quem vive na correria, para quem não pode pagar festa fechada nem tem tempo para disputar ingresso. É uma forma concreta de dizer que a universidade pública não pertence só a quem já estava dentro — e que a cidade tem direito a cruzar os muros, físicos ou não, que tentam separá-la do campus.

Num momento em que os espaços da noite estão sendo sistematicamente eliminados lá fora, essa disputa dentro da universidade ganha outro peso. Quem entra pelas cotas, quem vive na correria, quem não tem dinheiro para festa fechada — essa é a geração que arranca o espaço e constrói a cena. Sempre foi.


21 de maio

No dia 21 de maio, a Trema chega à UnB.

Foram os estudantes que abriram essa frente. Que foram buscar a festa, que quiseram essa presença dentro do campus. Esse movimento tem nome — é a mesma geração universitária que hoje habita as pistas de Brasília decidindo que a cultura que consome também pertence ao território onde estuda.

Trinta anos separam o subsolo da FAU desta quinta-feira. Não é o mesmo público — são gerações inteiras de distância. O que permanece é o território. E o fato de que ele continua sendo disputado.

Quando o mundo fecha suas pistas, as que resistem ganham outro peso.

O subsolo da FAU entendeu isso em 1995 sem ter palavras para dizer.

A UnB volta a dizer na quinta-feira. Trema na UnB — 21 de maio, às 18h. Entrada livre.


Tuntistun — onde a noite encontra memória.

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